Meu corpo, eu que escolho

Há quase um mês, a gente presenciou uma aberração: uma mulher, chamada Adelir, foi forçada a uma cesárea. Policiais armados a levaram de madrugada para o hospital após uma juíza expedir um mandato, pois uma médica afirmava que havia risco de vida. Vimos depois que não havia risco, que a opinião e decisão dela poderiam ter sido levadas em consideração e em consenso, ter sido acompanhada e ter tido seu parto como queria. Ela queria um parto normal, humanizado, em casa. A médica queria uma cesárea, porque o bebe estava sentado e diziam que era perigoso. Ela se recusou, assinou um termo e foi pra casa. E na madrugada, aconteceu o que aconteceu.O que eu quero falando isso de novo? Reforçar o direito de escolha sobre o nosso corpo, sobre nossas decisões. Um hospital achou que ela não era capaz de escolher e de arcar com suas escolhas, e achou que devia intervir. Tem muita gente achando que pode intervir nas decisões que tomamos sobre nós mesmas. A muito tempo.

O aborto é uma questão que devia ser tratada como direito da mulher decidir sobre seu corpo. Tirando as questões religiosas, afinal, o estado deve ser laico e isso não deve influenciar essa decisão já que cada mulher vai agir de acordo com seus princípios, e ai, cada uma que leve em conta isso, o aborto é uma questão de decisão da mulher sobre seu corpo. A mulher com poder de escolher o que quer. Sem essa de que “quem quer legalizar aborto já nasceu”, nem estatuto do nascituro e muito menos, que isso dá brecha pra geral sair engravidando e tirando. Sabia que no Uruguai, entre dezembro 2012 e maio de 2013,o país não registrou nenhuma morte decorrente de interrupções na gravidez? Com a legalização, as mulheres recebem apoio psicológico e muitas inclusive desistem. Porque se sentem amparadas, acolhidas e conseguem lidar com a situação. Aqui, elas são rechaçadas, recriminadas, tem que fazer escondido, em condições precárias ou muitas vezes, sozinhas, enfiando objetos pontiagudos no útero. Morrem milhares de mulheres, e é tão foda, que por ser um ato criminoso, a gente não tem nem estatística correta, porque afinal, quem vai sair dizendo que fez um aborto, se pode piorar ainda mais sua situação? Já basta o risco de morrer.

A discussão em torno da cesárea forçada de Adelir também esteve num embate de mulheres contra X mulheres a favor da cesárea. Mulheres se chamando de #menasmãe e de índia. E em dado momento, quem estava certa – cesárea ou parto natural, em casa ou no hospital, agendar ou deixar o bebê nascer na hora que ele estiver pronto e não na hora que a gente acha que ele está – não era a questão. O que a gente tinha que discutir é o direto de escolher e de ter essa escolha respeitada, porque o corpo é seu. A gente quer poder escolher como parir, sem ser julgada – se parir em casa, quero ser apenas uma mulher, não quero ser chamada de irresponsável, acusada de estar seguindo moda, ser apelidada de índia. Nesse debate dazíndia, eu tenho até tribo, #paripelaxota, mas respeito quem toma uma decisão diferente. Acredito que ela deva ser tomada com base em muita informação, sabendo dos riscos que uma cirurgia implica e expõe, mas nunca obrigada a ir contra a sua vontade.

A gente quer que os nascimentos sejam humanizados, independente se forem em casa ou no hospital. E que no hospital, as mulheres sejam solidárias com as outras. A violência obstétrica que a gente sofre não é só por médicos homens, tem muita enfermeira, obstetra que humilha, ridiculariza e esculacha mulheres no momento em que estão mais frágeis, fazendo com que o parto que devia ser uma experiência enriquecedora vire um circo de horrores. É corte no períneo, exame de toque, raspagem de pêlo, privação de movimento, privação de comida, perna amarrada. Seu corpo sendo violado mais uma vez. E pior, com consentimento de outras pessoas, afinal, “na hora de fazer não gritou”.A gente devia entender que quando se trata de corpo, estamos do mesmo lado. Cada uma quer que seu corpo não seja violado, por estupro, por um aborto clandestino, por um parto roubado, por uma cesárea forçada, por um parto normal violento. Se a gente se juntar e perceber o quanto nosso não tem de força, podemos romper com um sistema que oprime e ignora mulheres há anos. Mulheres que não são mães defenderam Adelir. Mães podem defender a legalização do aborto. Trabalhadoras que não querem ser mães podem defender o parto humanizado. Porque acima de tudo, estamos nos defendendo e defendendo nossas escolhas.

A médica e a juíza concordaram com um ponto e se ajudaram numa causa, que em um dia teve começo, meio e fim. Mobilização, resultado. Porque nós não nos unimos e fazemos o mesmo? Por que não nos apoiamos e lutamos juntas para que nossas decisões sobre nosso corpo sejam aceitas?

Temos que estar unidas, porque independente de concordar com a escolha da outra, temos que defender que todxs possamos escolher. E o nosso corpo é nosso, a gente é quem sabe.#ELLAvemai

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