A vaia, os médicos-ninja & a paz

Por Pedro Alexandre Sanchez, publicado originalmente no blog Utrapop

A cruzada antissocial de um punhado barulhento de médicos brasileiros ultrapassou todo e qualquer limite de civilidade e humanidade, eu também acho.

Sou da turma que não cansa de se chocar com a imagem já histórica registrada pela Folha de São Paulo em Fortaleza: duas mulheres de jalecos brancos e de epidermes não-negras levam as mãos em concha às próprias bocas para vaiar com ferocidade um médico cubano de olhar triste e pele escura. Não consigo compreender quem não enxergue o racismo simbólico explícito tirado do armário pela fotografia. É a velha e carcomida fórmula perversa da casa grande & senzala, quando o antigo chicote escravagista foi substituído pela língua “moderna” que vaia, grita, berra, urra, ruge: “Escravo!”.

Outra personagem emergente desse infeliz episódio vai à explicitude cadavérica via rede social, pasmada com o fato (ou melhor, hipótese) de que profissionais recém-chegadas de Cuba têm cara mais de “empregadas domésticas” (negras?) que de médicas. Cáspita!, diriam os nossos ancestrais. Ali Kamel, o mandachuva do “jornalismo” da Globo, seguirá depois dessa tormenta insistindo na tese caduca de que “não somos racistas”?

Para meu estômago aziado, essa turma de médicos brasileiros em cruzada atrapalhada excedeu qualquer fronteira de civilidade, humanidade e hombridade: xenófobos, fascistas, racistas. O sempre eficaz adjetivo “reacionários” parece pouco para eles & elas.

Mas algo tem me incomodado também do lado de cá, dos que elegeram (elegemos) os médicos “ricos, cultos” (e racistas) como vilões da hora. Seria mesmo adequado isolarmos esses ditos cujos como representantes solitários da miséria d’alma humana?

Infelizmente, acho que não. Está mais que na cara que estamos, para variar, empenhados em escolher, isolar e arrasar um judas de ocasião.

Não são “só” os médicos. Estamos acompanhando toda uma série de linchamentos verbais, morais, verborrágicos, um atrás do outro. Antes, havíamos ouvido um primeiro “murmurinho”, quando da aprovação da “PEC das Empregadas”, a emenda constitucional antimisógina e antiescravista que ousou mover um milímetro da estrutura casa-grande & senzala, ou melhor, casa-pequena & puxadinho, apartamento & quartinho de empregada.

Curiosamente (não, esse não é um advérbio adequado), a fúria linchadora se acentuou, e muito, a partir da passagem popstar do santo padre católico pelas praias brasileiras. Nem vou falar do “Ocidente” norte-american(izad)o doidinho para invadir e arrasar a Síria, deixe eu me deter no Brasil mesmo. O papa veio para cá, pediu e ofereceu amor, foi-se embora e… todo mundo começou a xingar todo mundo!!!

Inclusive entre “progressistas” que deploram a xenofobia médica brasileira, testemunhei com horror um recente processo linchatório dos movimentos coligados Fora do Eixo e Mídia Ninja. O bombardeio era bem maior que isto, mas foi especialmente centrado na figura do líder (de “seita”, segundo classificam católicos, evangélicos e ateus) Pablo Capilé. Imagino que, nesse caso, estamos empenhados em linchar moralmente um índio – sempre vejo o matogrossense Capilé como um índio que gosta de ficar de cócoras, embora ele se autoidentifique como descendente de brancos cenegros – evidentes traços negros, desrespeitados à farta até por jornalistas que se têm como tão “cultos” e “ricos” quanto os médicos anti-Mais Médicos.

À parte quaisquer críticas e denúncias que tenhamos a fazer contra os fora-do-eixo (veja bem, “fora-do-eixo”), olho e reolho a imagem do médico cubano vaiado pela brancura dos jalecos e enxergo um… “ninja”. Pois os jornalistas-ninja não desceram à terra das manifestações no exato instante em que os repórteres da Globo subiram aos céus de helicóptero, atemorizados pela hostilidade crescente dos manifestantes contra a mídia? E os médicos-ninja vindos de Cuba não vão justamente atuar em chão firme, de terra, enquanto a casta médica passeia na avenida Paulista e se recusa a descer de um olimpo “grego” autoidealizado?

Então o rapper paulistano Emicida lançou um álbum oficial de estreia (após uma série de mixtapes caseiras). O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui é totalmente independente, editado pelo selo próprio Laboratório Fantasma, e excelente. Mas não conquistou o noticiário por suas qualidades (pelas quais poucos “progressistas” se interessaram), mas por um grau de misoginia intrometido na faixa “Trepadeira”. Emicida teve de ouvir críticas pertinentes, mas o furor linchador carreou repulsas extremas – ouvi gente bacana dizer que “Emicida morreu para mim”.

Aí olho para a capa do disco do Emicida, e o que eu vejo? Um médico cubano com “cara” (ou cor de pele?) de “empregada doméstica”, mas atrevidamente vestido em elegantíssimo terno-colete-e-gravata. O microfone na mão quase parece um estetoscópio. Mas que audácia desse menino de senzala, orgulhosamente vestido de casa-grande! Como esse fedelho ousa fazer um glorioso retorno, se ele NUNCA esteve aqui (na casa-grande)?

Os exemplos são inúmeros. Os “black blocs” combatidos pela revista moralista de extema direita não são “white”, são “black blocs”.

A cumplicidade quieta transforma silêncio em linchamento, a partir de quando um setor substancial da sociedade (“progressista” inclusive) engole a lorota brava de colocar na conta de um garoto de 13 anos o assassinato de toda uma família de policiais (a dele), seguido de seu próprio suicídio. Nesse caso, o judas moralmente linchado já está morto – e dificilmente teria maturidade para se defender, caso não estivesse.

Outro dia, escrevi sobre um debate na periferia de São Paulo no qual o funk carioca (e paulistano, e brasileiro) foi menos ofendido do que exaltado. A caixa de comentários de “O funk e a margem de felicidade” exala eloquente nervosismo. Ninguém ali é racista, ninguém menciona a cor de pele predominante entre funkeiros. Mas (quase) todo mundo expressa fogosa e folgosamente o desejo de dizimar o “inimigo”. E o “inimigo”, branca coincidência, mora na favela, “herdeira” contemporânea da senzala escravista, como cantava Lobão quando ainda não tinha virado capitão-do-mato.

Acho que você pode me ajudar, somando mais exemplos a esse trem dos horrores de linchamentos pós-PEC, pós-passeatas, pós-hóstia que demos de vivenciar.

Enquanto escrevo, não me sai nunca da cabeça a imagem do santo papa, o homem branco europeu (apesar de argentino de nascença) vestido de branco, da cabeça aos pés. Costumam dar, a essa esquisitíssima combinação de fatores pálidos feito a morte, o nome de “paz”.

 

Um comentário sobre “A vaia, os médicos-ninja & a paz

  1. Quanto tempo se gasta pensando e falando acerca de racismo ambiental e seus desdobramentos? Gastamos? Penso que nao o suficiente, sobretudo, porque ninguem se assume preconceituoso e se esquece que preconceito nao eh privilegio, todo mundo tem… Entretanto, o preconceito de alguns se traduz sob a forma de racismo e um mero ato de ma vontade se transforma num ato de moRte.
    Esqueceram-se que os dominios da morte sao obscuros tem senhor e hora certos e o retorno eh de Jedi.

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