Após críticas, Fora do Eixo deve passar por reformulação

Publicado originalmente no Portal EBC em 28/08/2013

Por Leandro Melito – Portal EBC

 

Fortaleza – Com captação de recursos abaixo da expectativa, a 12ª edição da Feira da Música de Fortaleza, realizada entre os dias 21 e 24 de agosto na capital cearense, só aconteceu graças à participação da Rede Fora do Eixo, segundo o coordenador da Feira e integrante da Casa Fora do Eixo Nordeste, Ivan Ferraro. “Perdemos alguns editais e alguns patrocinadores esse ano. Se não fôssemos parte de uma rede tão forte, coesa e generosa como é a Rede Fora do Eixo, não teríamos realizado a Feira em 2013 e isso provavelmente seria a morte do evento, porque teríamos muito mais dificuldade de executar ela no próximo ano”, afirma.

A Mostra de Música Independente que acontece na Feira é realizada pela Associação dos Produtores de Cultura do Ceará (Prodisc) e Casa Fora do Eixo Nordeste, filiada à Rede Brasil de Festivais através do Circuito Nordeste de Festivais Independentes.

Ivan explica que a relação entre a Feira da Música e o Fora do Eixo é “umbilical”. “Nós estamos na Rede Brasil de Festivais, antiga Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes), desde 2005. Somos um dos eventos fundadores da Associação. Dentro dos 17 eventos que deram origem à Abrafin, a Feira da Música já estava, junto a outros eventos que faziam parte do circuito FdE. E ali na Abrafim, o FdE e todos esses festivais se juntaram. Então a partir daí, esse encontro foi processo, foi a construção do que a gente estava propondo para mexer na música no Brasil, nas estruturas, nos circuitos, na circulação.

Assita à entrevista com Ivan Ferraro, coordenador da Feira da Música

Talles Lopes, integrante da Casa Fora do Eixo Minas e da Rede Brasil de Festivais, considera que a edição de 2013 da Feira de Fortaleza foi uma oportunidade para reletir sobre as plataformas colaborativas que têm sido construídas na música independente brasileira nos últimos anos. “Especialmente nesse ano, onde tudo isso foi de certa forma afetado por um debate mais amplo que está acontecendo em toda a sociedade brasileira sobre o Fora do Eixo e suas formas de trabalho. Isso não podia deixar de ser uma das coisas colocadas em discussão”, ressalta.

Os integrantes do coletivo que participaram da Feira da Música em Fortaleza se reuniram para conversar sobre as críticas que o grupo vem sofrendo desde a participação de Pablo Capilé, um dos fundadores, no programa jornalístico Roda Viva para falar sobre a Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) – iniciativa de jornalismo colaborativo articulada pelo Fora do Eixo -, que gerou grande repercussão após as manifestações de junho.

Talles considera que o Fora do Eixo deve passar por uma reformulação depois dos últimos acontecimentos, o que deve acontecer em um congresso nacional da rede. “Acho que não tem como depois de tudo isso que está acontecendo não vir uma nova versão atualizada desse software. Como é software livre, todo mundo se vê no direito de colocar suas impressões, de mexer no código fonte, de apresentar propostas de rearranjo desse código fonte. Acho que  isso que está sendo feito e naturalmente a gente vai ter aí um F5, uma nova versão atualizada”, diz ele.

Assista à entrevista com Talles Lopes da Casa Fora do Eixo Minas

 

Integrantes

Para realizar a Feira da Música em Fortaleza, foram mobilizados mais de 30 integrantes da Rede Fora do Eixo de diferentes regiões do país. Tassio Lopes está hoje na casa Fora do Eixo Sul, em Porto Alegre, e participou pela primeira vez da organização da Feira da Música. Formado em Ciências Sociais, ele começou a atuar no coletivo Goma em Uberlândia, um dos primeiros grupos da Rede. “No começo eu ficava mais na frente do audiovisual, tinha um trabalho filmando e documentando o cenário cultural independente em Uberlândia. Percebi que no Fora do Eixo eu podia aplicar esses conhecimentos que eu tinha tanto dentro da academia, quanto ao audiovisual, uma área também onde eu estava trabalhando em registro documental”. Ele participou da montagem da Casa Fora do Eixo Minas e está há seis meses morando em Porto Alegre.

Assista em vídeo o relato sobre a experiência de Tassio na Feira da Música

Clayton Nobre é uma das pessoas que coordena a Universidade Livre Fora do Eixo e também faz parte do núcleo de artes cênicas chamado palco Fora do Eixo. Ele entrou na rede por meio do coletivo Difusão, um dos pontos do Fora do Eixo em Manaus, há quase três anos. De lá foi para Belo Horizonte, participar da construção da Casa Fora do Eixo Minas Gerais, onde está até hoje.

Nobre  considera que boa parte das críticas ao Fora do Eixo tem sido feita por pessoas que não se adaptaram ao modo de vida coletiva do grupo e tiveram uma experiência traumática de saída. “Se a gente fosse contabilizar o processo de entrada e saída, esse fluxo é muito intenso. E é claro que algumas pessoas, muito por conta do processo de vida coletiva, não conseguem se adaptar de uma forma muito fácil. Um processo que é de sair um pouco da zona de conforto em diversos níveis”, diz.

Ele acredita que o Fora do Eixo tem que fazer uma reconstrução para “sair mais fortalecido de todo esse processo”.  “Tentar ver quais sãos as críticas que de certa forma são construtivas, no sentido da gente poder fazer uma reavaliação, um fortalecimento dentro da rede, e a partir daí a gente se reestruturar e se ressignificar, que é um processo que o Fora do Eixo sempre faz e acho que de certa forma a gente está fazendo de uma forma mais intensiva.

Assista à entrevista com Clayton

Talles Lopes considera que os integrantes do Fora do Eixo estão tendo que lidar com o crescimento do grupo e as expectativas que ele tem gerado. “Determinadas cobranças não tinham que estar caindo sobre a gente, tinham que cair lá na Funarte, lá no Ministério da Cultura, nas secretarias estaduais, nas secretarias municipais. Mas a gente também assume um pouco essa responsabilidade, a gente não vai fugir disso, e vamos tentar responder a essa expectativa que está sendo criada, tentando equalizar”, acredita.

Bandas

Um dos artistas que veio a público criticar o Fora do Eixo, Daniel Peixoto, principal nome da música eletrônica no Ceará, não quer mais falar sobre o assunto. Ele se apresentou na Feira da Música no sábado (24/8) e explicou ao público que sua relação com a Feira é mais antiga do que com o Fora do Eixo, e que a considera uma oportunidade importante para se apresentar em sua cidade.

Assista ao depoimento de Daniel Peixoto sobre a Feira da Música

A banda Astronauta Marinho, que abriu a Mostra de Música Independente, tem uma parceria de cerca de três meses com o fora do Eixo, mas considera que a relação com o coletivo é boa e pode ser ampliada. “A gente produziu o EP no nosso estúdio e acabamos virando parceiros de distribuição. A casa está funcionando basicamente com a gente, como uma agência de distribuição do disco na rede local e fora e agenciando shows como a abertura do festival. Estamos começando a conversar também a circulação, queremos muito rodar esse Ceará, Nordeste, mostrar o que está rolando aqui, e estabelecer diálogos com o povo daqui”, conta Caio Cartaxo, baixista da banda.

“Estamos trabalhando um disco novo mas sabemos que este não é um momento de exigir muito. A gente quer tocar, quer que o nosso som circule, em quanto mais buraco a gente estiver tocando melhor pra gente. É claro que a gente prima por uma qualidade mínima técnica. Mas a nossa relação é muito boa, [o Fora do Eixo] está meio em crise, mas a gente está bem, acho que todo mundo tem sua posição, quem está gostando fica, quem não está gostando sai”, considera Guilherme Alvez, baterista da banda.

Assista à entrevista com os integrantes da banda Astronauta Marinho

A banda Zefirina Bomba tocou no evento na quinta-feira (22) e avalia que o Fora do Eixo tem boas iniciativas para a cena independente. “A gente não tem nenhuma relação com o Fora do Eixo, a gente apoia boas ideias. Normalmente várias coisas que o Fora do Eixo promove são ações positivas e a gente tem somado com isso.Estão xingando sem conhecer como a coisa funciona, como o processo acontece. Existem problemas, existem coisas erradas que vão ser consertadas. Mas se todo mundo colaborar eu acho que melhora”, considera Ilson, vocalista e violonista da banda.

Há dois anos, entrou na banda o baterista Rayan, membro de um coletivo que integra o Fora do Eixo na Paraíba. Ele considera que o Fora do Eixo tem erros que precisam ser corrigidos, mas acredita que o grupo passa por um “linchamento simbólico”: “O Fora do Eixo é uma das redes, um dos movimentos, que têm feito muita coisa positiva. Tem errado nesse caminho sim porque o processo é feito de erros e acertos e aprendizados, o FdE está aberto a críticas, não é o único, não é a salvação, não é perfeito. A melhor resposta que a gente tem para dar é o trabalho, é continuar fazendo mais bandas circularem, mais coletivos terem voz e vida em cidades pelo Brasil inteiro”, acredita.

Assista em vídeo a entrevista com os integrantes da banda Zefirina Bomba

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