(Primeiro post. Só pra começo de conversa...)
Poucas sensações na vida podem ser tão legais e excitantes quanto a de se tocar em conjunto. E isso exclui a necessidade de se ter um público ouvinte. Tocar com uma banda já é instigante no próprio ensaio, quando apenas os integrantes são a platéia. Perder horas a fio com quatro marmanjos, trancado dentro de um cômodo com isolamento acústico fazendo música está entre as atividades mais prazerosas da vida desse nobre músico que vos escreve. Mas, indo direto ao assunto, é preciso considerar que um indivíduo desinformado quase sempre é iludido. E que o indivíduo iludido quase sempre dá com os burros n'água. E quem dá com os burros n'água quase sempre é infeliz.
Eu vejo amigos músicos se consumindo com a frustração de perceber, cada vez mais longe, as luzes dos holofotes e dos flashs, as noites em hotéis cinco estrelas, a tietagem das fãs histéricas e os cachês (ah, sempre eles) exuberantemente altos. Não sinto a menor pena. Para o futuro idealizado por eles, é mesmo de fazer sofrer o retrato da atual realidade. Muita gente que trabalha com música autoral - e deseja fazer disso um ganha pão - ainda pensa que, um dia, um produtor de uma major vai chegar sorridente, abrir um envelope e tirar de lá de dentro um contrato milionário garantindo tudo que é preciso pra produzir e distribuir seu trabalho.
Rá!
Sei o quanto é difícil não se render ao saudosismo e desejar que as coisas voltem a ser como eram há duas décadas atrás, mas o mundo muda, as coisas andam (mesmo que para trás) e é preciso, ao menos, entender a atualidade. É triste (ou feliz?) notar que não dá mais pra conceber a idéia de que basta ser talentoso para se chegar a um patamar de reconhecimento e valorização merecido. Se isso fosse o bastante não haveria no mundo espaço para tantos artistas que podem ser definidos como "merecedores de atenção".
Então digo aos meus amigos músicos que é preciso acordar para o presente. Faço meu discurso acalourado sobre "a mola motriz dos homens: a produção e o consumo". Insisto em tentar mostrar que a arte também já foi, há tempos, apropriada por esse sistema no qual estamos inseridos enquanto sociedade. Proclamo que o caminho da independência é árduo e talvez mais longínquo do que eles possam imaginar, mas a única saída pontual para que seja possível externalizar, ainda nessa vida, todo o potencial artístico neles aprisionado. Tudo em vão.
A vida da gente é um eterna busca por reconhecimento e se descobrir um sonhador (no sentido pejorativo da palavra) pode ser, para muitos, doloroso demais. Se falta coragem para a encarar a verdade nua e crua pode ser hora de mudar os planos, mudar de rumo, levar a vida que seus pais sempre sonharam pra você. Tradicional na medida do possível e organizada o bastante para que a família se orgulhe de você. Agora, se a necessidade de contribuir para uma mudança maior, que talvez só seja percebida muito tempo depois, lateja dentro do seu peito o tempo todo, é hora de arregaçar as mangas e dar a cara a tapa.
A proposta da música independente não é minha nem começou ontem, mas a vontade de vê-la sólida e estabelecida sustentavelmente permite que eu me compare a Santos Dummont, ao começar a divulgar suas primeiras idéias sobre a construção de uma geringonça pesada que pudesse transportar pessoas pelo céu. A não adesão dos meus amigos me faz pensar sobre o quanto somos domesticados pela maldita mídia que crescemos vendo e que dita como as coisas devem ser por muitos e muitos anos. Mesmo que as coisas já não aconteçam com aconteciam há décadas, tem gente que ainda pensa do mesmíssimo jeito. E o pior: desperdiça todo seu esforço de trabalho em prol de projeto que já nasce falido.
Já foi-se o tempo em que artista (mais especificamente músicos) dispunha de regalias como se fosse um ser superior, dotado de poderes exclusivos que o fizessem inigualável. Os que hoje ainda gozam desse tipo conforto não são naturalmente artistas, mas robôs humanos fabricados por uma multinacional do ramo da música que cria primeiro a moda para depois injetar nela seus ícones. O músico bem sucedido hoje não se dá ao luxo de "apenas" compor, gravar e tocar. É preciso entender a reconfiguração do cenário cultural - sobretudo no Brasil onde as coisas fervilham mais do que nunca - e estar ciente de que para estar tocando e vivendo efetivamente de música o sujeito tem que literalmente "botar a mão na massa".
Viver de banda é viver para a banda. No último show dos Móveis Coloniais de Acajú (que se autodenomina uma banda-empresa) em BH, vi com os próprios olhos o que é o processo de autogestão. Sim, muitas bandas têm, frequentemente, produzido seus shows. Os músicos tem sido produtores, técnicos de som e iluminação, roads, motoristas, publicitários, panfleteiros, em suma, pau pra toda obra. No caso do MCA, que possui nada menos que 9 integrantes, as atividades se dividem e dá pra ver que, no fim das contas, o esforço de cada músico junto com a toda a equipe foi recompensado. Hoje a banda é um expoente no cenário independente brasileiro e um "case de sucesso" pra qualquer um que queira enveredar por esse caminho. O que dá orgulho de ver é que ninguém ali está rico com banda, mas pergunte a eles se eles estão insatisfeitos.
Exemplos assim estão se tornando comuns Brasil a fora e isso entusiasma tanto que divulgar e tentar fortalecer a cena passa a ser uma obrigação, um projeto de vida. Ainda há muito (muito mesmo!) a ser feito por mim e por todos os que já se uniram em prol dessa causa. Mas esse é um sonho em que acredito tanto que já me sinto realizado só por estar lutando.










3 comments
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Mano...
Assino em baixo
Esse seu post foi muito revigorante para quem está na luta, não só da arte em geral, mas pra quem está ai na vida!!
isso me deu um gás novo pra enfrentar as coisa que aparecerem!
Você sabe que eu aprecio sua arte não é de hoje e sempre vou continuar apreciando, e se precisar de qualquer ajuda estarei aqui! Assino em baixo de tudo o que você disse!
Assino em piano
Tempo previsto para eu me arrepender de escrever essas bobagens: 1 segundo após o envio. Mas vai assim mesmo... 5, 4, 3, 2...
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