Sobre disciplinar o ego...
July 26, 2010 - No comments yetAqui estou eu mais uma vez com minhas elucubrações sobre o comportamento humano. As vezes me pergunto: por que não entrei no curso de psicologia? Vai saber. Talvez pelo fato da ostentação de se dizer "Jornalista" naquela época ainda fazer algum sentido. A vaidade é mesmo uma faca de dois legumes: faz a gente acreditar no que vai nos ridicularizar um segundo depois.
E por falar em vaidade, lembrei da aventura que é estar permanentemente perto desses exemplares da espécie humana que, cheios de si, se afogam na própria soberba. Passam-se os anos e os comportamentos são sempre os mesmos. O cidadão passa gel no cabelo e pensa que é Reinaldo Gianecchini, o fortão rebaixa o carro e coloca alto-falantes (mais caros que o próprio veículo) para sair acordando a cidade inteira madrugada adentro e se fazer notar, o advogado mente despudoradamente para o juiz e para o cliente e se acha um profissional exemplar, o "músico" aprende a fazer meia dúzia de acordes e se julga merecedor da fama. E a lista segue sem fim.
Estão todos unidos no mesmo hall e assolados pela mesma carência dessa noção que vai muito além da "falta de humildade". Uma incapacidade de olhar para si mesmo com mais honestidade. Quando não há espaço para a auto-crítica, a necessidade (inconsciente?) do ser humano de se tornar admirado por seus semelhantes vai se tornando uma meta que - por ser inatingível - corrompe o caráter.
É comprovadamente difícil conviver com gente que não consegue segurar as rédeas. Gente que acaba, não apenas alimentando o fogo, mas caindo de cabeça na fogueira do próprio ego. Por isso, fica claro que a vaidade é uma chama flamejante que não se apaga nunca dentro de ninguém, mas que em alguns é mais branda, e em outros, se me é permitido o eufemismo, um pouco feroz.
Dessa maneira, há quem pense, há quem aja e há quem não pense nem aja, apenas fale. E a retórica inflamada em prol da auto-promoção é como um bicho-de-pé que o sujeito percebe, mas finge não ver só para curtir aquela coceirinha gostosa que dá enquanto o bicho cresce. O problema é que as vezes o bichinho cresce demais, se transforma em enfermidade e come o pé inteiro. Aí não tem saída, só amputando.
Então, se tiramos a viseira e olhamos ao redor com um pouquinho mais de atenção, notamos que tem "perneta" aos montes em cima de palanque fazendo discurso, em cima de palco cantando, conjecturando em importantes reuniões, dando sermão a frente de assembléias em igrejas, em todo o canto em que haja gente.
Mas a vaidade exacerbada é o verdadeiro tiro que sai pela culatra. O vaidoso - cedo ou tarde - cai na realidade, cai do palanque, cai do altar. Seu tapete é puxado pelo senso de desconfiança que povoa o inconsciente coletivo. Ele é humano e falível. Passível de erro. E quem erra não tem perdão.
A crueldade humana para atirar pedras nos que cometem falhas é proporcional a sua imbecilidade para adorar os vaidosos.
E dá-lhe pedrada!
LOUCURA QUE COMPENSA?
July 17, 2010 - 3 comments
(Primeiro post. Só pra começo de conversa...)
Poucas sensações na vida podem ser tão legais e excitantes quanto a de se tocar em conjunto. E isso exclui a necessidade de se ter um público ouvinte. Tocar com uma banda já é instigante no próprio ensaio, quando apenas os integrantes são a platéia. Perder horas a fio com quatro marmanjos, trancado dentro de um cômodo com isolamento acústico fazendo música está entre as atividades mais prazerosas da vida desse nobre músico que vos escreve. Mas, indo direto ao assunto, é preciso considerar que um indivíduo desinformado quase sempre é iludido. E que o indivíduo iludido quase sempre dá com os burros n'água. E quem dá com os burros n'água quase sempre é infeliz.
Eu vejo amigos músicos se consumindo com a frustração de perceber, cada vez mais longe, as luzes dos holofotes e dos flashs, as noites em hotéis cinco estrelas, a tietagem das fãs histéricas e os cachês (ah, sempre eles) exuberantemente altos. Não sinto a menor pena. Para o futuro idealizado por eles, é mesmo de fazer sofrer o retrato da atual realidade. Muita gente que trabalha com música autoral - e deseja fazer disso um ganha pão - ainda pensa que, um dia, um produtor de uma major vai chegar sorridente, abrir um envelope e tirar de lá de dentro um contrato milionário garantindo tudo que é preciso pra produzir e distribuir seu trabalho.
Rá!
Sei o quanto é difícil não se render ao saudosismo e desejar que as coisas voltem a ser como eram há duas décadas atrás, mas o mundo muda, as coisas andam (mesmo que para trás) e é preciso, ao menos, entender a atualidade. É triste (ou feliz?) notar que não dá mais pra conceber a idéia de que basta ser talentoso para se chegar a um patamar de reconhecimento e valorização merecido. Se isso fosse o bastante não haveria no mundo espaço para tantos artistas que podem ser definidos como "merecedores de atenção".
Então digo aos meus amigos músicos que é preciso acordar para o presente. Faço meu discurso acalourado sobre "a mola motriz dos homens: a produção e o consumo". Insisto em tentar mostrar que a arte também já foi, há tempos, apropriada por esse sistema no qual estamos inseridos enquanto sociedade. Proclamo que o caminho da independência é árduo e talvez mais longínquo do que eles possam imaginar, mas a única saída pontual para que seja possível externalizar, ainda nessa vida, todo o potencial artístico neles aprisionado. Tudo em vão.
A vida da gente é um eterna busca por reconhecimento e se descobrir um sonhador (no sentido pejorativo da palavra) pode ser, para muitos, doloroso demais. Se falta coragem para a encarar a verdade nua e crua pode ser hora de mudar os planos, mudar de rumo, levar a vida que seus pais sempre sonharam pra você. Tradicional na medida do possível e organizada o bastante para que a família se orgulhe de você. Agora, se a necessidade de contribuir para uma mudança maior, que talvez só seja percebida muito tempo depois, lateja dentro do seu peito o tempo todo, é hora de arregaçar as mangas e dar a cara a tapa.
A proposta da música independente não é minha nem começou ontem, mas a vontade de vê-la sólida e estabelecida sustentavelmente permite que eu me compare a Santos Dummont, ao começar a divulgar suas primeiras idéias sobre a construção de uma geringonça pesada que pudesse transportar pessoas pelo céu. A não adesão dos meus amigos me faz pensar sobre o quanto somos domesticados pela maldita mídia que crescemos vendo e que dita como as coisas devem ser por muitos e muitos anos. Mesmo que as coisas já não aconteçam com aconteciam há décadas, tem gente que ainda pensa do mesmíssimo jeito. E o pior: desperdiça todo seu esforço de trabalho em prol de projeto que já nasce falido.
Já foi-se o tempo em que artista (mais especificamente músicos) dispunha de regalias como se fosse um ser superior, dotado de poderes exclusivos que o fizessem inigualável. Os que hoje ainda gozam desse tipo conforto não são naturalmente artistas, mas robôs humanos fabricados por uma multinacional do ramo da música que cria primeiro a moda para depois injetar nela seus ícones. O músico bem sucedido hoje não se dá ao luxo de "apenas" compor, gravar e tocar. É preciso entender a reconfiguração do cenário cultural - sobretudo no Brasil onde as coisas fervilham mais do que nunca - e estar ciente de que para estar tocando e vivendo efetivamente de música o sujeito tem que literalmente "botar a mão na massa".
Viver de banda é viver para a banda. No último show dos Móveis Coloniais de Acajú (que se autodenomina uma banda-empresa) em BH, vi com os próprios olhos o que é o processo de autogestão. Sim, muitas bandas têm, frequentemente, produzido seus shows. Os músicos tem sido produtores, técnicos de som e iluminação, roads, motoristas, publicitários, panfleteiros, em suma, pau pra toda obra. No caso do MCA, que possui nada menos que 9 integrantes, as atividades se dividem e dá pra ver que, no fim das contas, o esforço de cada músico junto com a toda a equipe foi recompensado. Hoje a banda é um expoente no cenário independente brasileiro e um "case de sucesso" pra qualquer um que queira enveredar por esse caminho. O que dá orgulho de ver é que ninguém ali está rico com banda, mas pergunte a eles se eles estão insatisfeitos.
Exemplos assim estão se tornando comuns Brasil a fora e isso entusiasma tanto que divulgar e tentar fortalecer a cena passa a ser uma obrigação, um projeto de vida. Ainda há muito (muito mesmo!) a ser feito por mim e por todos os que já se uniram em prol dessa causa. Mas esse é um sonho em que acredito tanto que já me sinto realizado só por estar lutando.









