texto: Ney Hugo

revisão e autorização: Dríade Aguiar, Carol Morgan, Michelle Parron e Cássia Cardoso.

 

O Congresso Fora do Eixo tem um efeito catalisador das ações anuais da rede. Creio que a principal catálise se dê no campo dos encontros presenciais, e as trocas de informações e experiências. São diferentes culturas, identidades, costumes, cheiros, afetividades e sotaques.

Uma troca muito bacana aconteceu com a índia Kaun Poty Guarani, que deu importante contribuições nas plenárias do Congresso durante a semana. Eu e Cassinha, da Quina Cultural (Salvador-BA), pilhamos a cacique fuzilando-a de perguntas. Ninguém mandou ela dar abertura.

Olha só o que descobrimos: a comunidade estimula as meninas a se casarem com 12 anos, por dois motivos principais: Primeiro pra manter a crença de nada de sexo antes do casamento. A cacique foi sincera: “menino e menina jovem juntos vai dar em que? Sexo né... por isso que a gente já casa logo pra manter nossas crenças e costumes”. O segundo motivo é pra evitar a prostituição, mazela inserida pelo homem branco.

Indo mais a fundo nos costumes sexuais, olha a pira: A mulher viúva não pode se casar novamente, porque ela tem que honrar a viuvez. Isso no caso de o marido falecido a ter honrado. No caso de traição, ou casamento com mulher branca, a índia está autorizada a um novo casamento. Mas o índio homem viúvo pode se casar novamente quando quiser. Os primeiros mais reacionários dirão “que sociedade incoerente e preconceituosa”.

Mas pera lá, sejamos justos. Vamos partir pra outro exemplo de caso. O cacique homem pode ter até 7 mulheres, se tratar a todas com a mesma honradez. Dorme cada noite com uma e não existe tratamento diferenciado, são 7 esposas mesmo.


Eu particularmente acho que se o índio é “o cara” pra dar conta de tudo isso, tá mais é certo. Na nossa sociedade branca e “civilizada” o homem tem 7 mulheres, mas trata com honradez apenas uma, aquela que mora na mesma casa e cuida de seus filhos.

Já a cacique mulher não pode ter 7 homens. E aí “Opa, tá aí mais uma incoerência dessa sociedade incoerente e preconceituosa”.

Eu acho o máximo esse contexto.

Mas aí agora o “Opa pera lá” já vira “pô, qualé ney, vai ficar aí pagando de machista, seu prego!!!”.

Me explico.

É só uma provocaçãozinha, porque na verdade, antes nem cacique a mulher podia ser. Kaun Poty Guarani foi a grande guerreira que transformou essa realidade. Em paralelo com a nossa socidade “civilizada” e orgulhosa, temos um histórico de só recentemente a mulher votar, só agora nesse ano tivemos duas mulheres presidenciáveis e só agora após 510 anos de “civilização” elegemos uma mulher presidente do Brasil, o quinto maior país do mundo.


Só agora no Fora do Eixo criamos o FEmininas e temos a mulherada correspondendo a 51% dos membros do Circuito, legitimando o nosso movimento como promotor da igualdade de gênero.

É por isso que adorei esse contexto. É muita arrogância nos acharmos na frente dos indígenas quando o fato é que temos muito que aprender com eles. E eles muito conosco, assim como todas as trocas humanas. Afinal, 80 anos (se é que se vive isso) é muito pouco pra absorver todo o conhecimento humano.

Tudo o que mais desejo pras caciques guaranis é que elas possam se casar com 7 homens, se derem conta de tratar todos com a “mesma honradez”.

E pra nós: que nos policiemos com nosso próprio preconceito e arrogância. Seja em questão de gênero, etnia, sexualidade, regionalidade ou qualquer outra dessas.