Culturas, Identidades, Costumes, Cheiros, Afetividades e Sotaques
October 31, 2010 - 2 commentstexto: Ney Hugo
revisão e autorização: Dríade Aguiar, Carol Morgan, Michelle Parron e Cássia Cardoso.
O Congresso Fora do Eixo tem um efeito catalisador das ações anuais da rede. Creio que a principal catálise se dê no campo dos encontros presenciais, e as trocas de informações e experiências. São diferentes culturas, identidades, costumes, cheiros, afetividades e sotaques.
Uma troca muito bacana aconteceu com a índia Kaun Poty Guarani, que deu importante contribuições nas plenárias do Congresso durante a semana. Eu e Cassinha, da Quina Cultural (Salvador-BA), pilhamos a cacique fuzilando-a de perguntas. Ninguém mandou ela dar abertura.
Olha só o que descobrimos: a comunidade estimula as meninas a se casarem com 12 anos, por dois motivos principais: Primeiro pra manter a crença de nada de sexo antes do casamento. A cacique foi sincera: “menino e menina jovem juntos vai dar em que? Sexo né... por isso que a gente já casa logo pra manter nossas crenças e costumes”. O segundo motivo é pra evitar a prostituição, mazela inserida pelo homem branco.
Indo mais a fundo nos costumes sexuais, olha a pira: A mulher viúva não pode se casar novamente, porque ela tem que honrar a viuvez. Isso no caso de o marido falecido a ter honrado. No caso de traição, ou casamento com mulher branca, a índia está autorizada a um novo casamento. Mas o índio homem viúvo pode se casar novamente quando quiser. Os primeiros mais reacionários dirão “que sociedade incoerente e preconceituosa”.
Mas pera lá, sejamos justos. Vamos partir pra outro exemplo de caso. O cacique homem pode ter até 7 mulheres, se tratar a todas com a mesma honradez. Dorme cada noite com uma e não existe tratamento diferenciado, são 7 esposas mesmo.
Eu particularmente acho que se o índio é “o cara” pra dar conta de tudo isso, tá mais é certo. Na nossa sociedade branca e “civilizada” o homem tem 7 mulheres, mas trata com honradez apenas uma, aquela que mora na mesma casa e cuida de seus filhos.
Já a cacique mulher não pode ter 7 homens. E aí “Opa, tá aí mais uma incoerência dessa sociedade incoerente e preconceituosa”.
Eu acho o máximo esse contexto.
Mas aí agora o “Opa pera lá” já vira “pô, qualé ney, vai ficar aí pagando de machista, seu prego!!!”.
Me explico.
É só uma provocaçãozinha, porque na verdade, antes nem cacique a mulher podia ser. Kaun Poty Guarani foi a grande guerreira que transformou essa realidade. Em paralelo com a nossa socidade “civilizada” e orgulhosa, temos um histórico de só recentemente a mulher votar, só agora nesse ano tivemos duas mulheres presidenciáveis e só agora após 510 anos de “civilização” elegemos uma mulher presidente do Brasil, o quinto maior país do mundo.
Só agora no Fora do Eixo criamos o FEmininas e temos a mulherada correspondendo a 51% dos membros do Circuito, legitimando o nosso movimento como promotor da igualdade de gênero.
É por isso que adorei esse contexto. É muita arrogância nos acharmos na frente dos indígenas quando o fato é que temos muito que aprender com eles. E eles muito conosco, assim como todas as trocas humanas. Afinal, 80 anos (se é que se vive isso) é muito pouco pra absorver todo o conhecimento humano.
Tudo o que mais desejo pras caciques guaranis é que elas possam se casar com 7 homens, se derem conta de tratar todos com a “mesma honradez”.
E pra nós: que nos policiemos com nosso próprio preconceito e arrogância. Seja em questão de gênero, etnia, sexualidade, regionalidade ou qualquer outra dessas.
PCULT
September 27, 2010 - No comments yetO PCULT – Partido da Cultura surgiu em 2010 meses antes das eleições. Trata-se de um movimento social com vistas ao favorecimento e maior preocupação com as políticas públicas para a cultura. Até então todo o trabalho desenvolvido nesse campo havia sido na instância da sociedade civil. O PCULT passa a ser a ferramenta de conexão desse trabalho com a política eleitoral.
O que dá a musculatura, legitimidade e dinâmica ao PCULT é a peculiaridade de, ao mesmo tempo em que admite e estimula a presença de integrantes de todos os partidos políticos, tem em sua maioria integrantes que não estão filiados a partido nenhum. O PCULT se torna o Partido da Cultura, com uma diferença em relação aos “partidos”, no sentido convencional da palavra. A diferença está no significado da palavra “Partido” não remeter aos partidos de fins eleitoreiros, mas sim de “tomar partido”. O partido que se toma é o partido da cultura.
Com esse intuito, o PCULT se mobilizou nacionalmente e hoje marca presença em todos os estados brasileiros com exceção de Maranhão e Piauí. Em todos os estados onde fez sede, o PCULT realizou várias ações como reuniões de esclarecimento das propostas e mobilização, sabatina com candidatos a governadores, ações de repúdio ao mau funcionamento de espaços públicos e políticas culturais, etc.
Através desses diálogos nota-se a autonomia da movimentação da classe artística brasileira, que teve um salto quantitativo e qualitativo gritantes nos últimos anos. O PCULT surge num momento em que já se passaram 10 anos do início da popularização da internet. Nesse tempo a comunicabilidade entre os artistas, produtores e a cadeia produtiva de uma maneira geral aumentou muito, o que acarretou na formação de um sem número de artistas auto-gestores, fugindo da dependência de grandes corporações de comércio de cultura, as grandes gravadoras no caso da música.
Essa “autogestionabilidade”, unida ao aumento do poder de comunicação entre a classe artística/cultural potencializa essa autonomia, uma vez que o fazer cultural não está refém nem do poder público, nem da iniciativa privada. Dessa maneira consegue dialogar com candidatos e membros atuais do poder público de maneira organizada e sistêmica, esclarecendo o quanto a cultura gera para a economia através da indústria criativa, além de aumento do capital simbólico em relação à conscientização social e arte.
A movimentação da cadeia produtiva somada à agitação cultural gerou um considerável chamariz para entidades participativas, ao mesmo tempo em que gera a auto-sustentabilidade do processo cultural, o que garante a autonomia. Outra conseqüência desse levante é o aumento da conscientização e mobilização da classe artística como um todo, muitos conquistados por essa autonomia que virou a mesa e redefiniu o processo cultural no Brasil.
O que era uma cultura repartida agora se une, debate demandas e ações e as sinaliza e realiza de maneira conjunta. Sempre tomando partido pela cultura, independente do partido (ou partido nenhum) ao qual o indivíduo está filiado.
Transbordando - #Midialivrismo em Belo Horizonte!
September 16, 2010 - No comments yet
Estamos em Belo Horizonte, terra do Coletivo Pegada, e agora terra do Transborda, o festival que o coletivo produz para ocupar BH e principalmente questionar perante os cidadãos belorizontinos do porquê das riquezas culturais estarem pouco valorizadas. O festival tem essa abordagem, esse transbordar, essa inundação da cultura de BH e do Brasil transbordando pelos poros da cidade.
Os dias, os trabalhos, diálogos, debates e “transbordagens” ja estão bem intensos. Veja abaixo a oitava edição do Bit, o programa de audiovisual de 140 segundos, idealizado pelo núcleo de audiovisual do FEM (Fora do Eixo Minas).
O festival teve início logo na segunda feira, com a realização de várias oficinas. Uma delas foi a de #midialivrismo, ministrada por 3 membros do Centro Multimídia Fora do Eixo: Ney Hugo (Espaço Cubo, Cuiabá-MT); Camila Cortielha (Pegada, BG-MG); Rafael Rolim (Massa Coletiva, São Carlos-SP).
A oficina acontece durante todo o festival e consiste no seguinte: um dia de conversa e contextualização sobre #midialivrismo. Um dia de sistematização da equipe; e de agora em diante é só prática. Os participantes da oficina se estimularam bastante com a liberdade de criação e gestão que receberam.

Além da oficina de mídia livre, teve uma outra de grande importância para a comunicação: "Inferninhos & Afins: Por que eles precisam de nós?" ministrada pelo 45 Jujubas.

Essa trata da importância da criatividade na criação de identidade visual. Clique aqui e leia mais sobre os assuntos, em matérias escritas pelos participantes das oficinas.

Outra de grande importância foi a de Gestão de Eventos Sustentáveis, com a educadora ambiental Maíra Miller, integrante do Coletivo Peleja, de Patos de Minas. Clique aqui e leia a cobertura feita por participantes da oficina #midialivrista.
Nesta quarta feira teve início o Congresso Fora do Eixo Minas/Espírito Santo, o lançamento oficial do Festival Transborda e um show com a banda instrumental DiBigode, que ainda contou com intervenções teatrais do #Aborda.
Traremos mais detalhes aqui na próxima edição do #Transbordando.
Aguarde, e acompanhe abaixo algumas fotos de aperitivo.
Congresso MG/ES

Coletivo Pegada apresentando organograma

Lançamento oficial do Transborda

Intervenção #Aborda durante o show do DiBigode
O público aprovou a intervenção
Acesse: www.festivaltransborda.com.br
O Mal do Mundo é se achar superior ao seu semelhante
July 16, 2010 - No comments yet
Portas abertas vem me convidar
A usar o microfone e resolver falar
Do que eu vivo já que estou vivo
Depois de tanto tempo respirando ar
Cortante seco, me esfola a garganta
Mantém caído quem já não levanta
E do sinal fechado pro lado da bonança
Que nos mostra o lixo, mas não limpam a lambança
Cair na vida e procurar a luz
A natureza e o céu que me conduz
Olhar pra cima e seguir em frente
Rumbora agora que o futuro é a gente
Calado não da pra ficar
Mudo, sem mudar
Olhos abertos, fácil de enxergar
Que quem ganha o poder não quer ver o mundo mudar
A novidade subverte e mostra novas opções
E mata de medo quem não tem mais soluções
Quando atirei, acertei meu coração
Só o bem faz a revolução
Lavo a alma com o sal, me faz cicatrizar
Não ganho medo de perder
Nem perco a vontade de ganhar
Cair na vida e procurar a luz
A natureza e o céu que me conduz
Olhar pra cima e seguir em frente
Rumbora agora que o futuro é a gente
Calado não da pra ficar
Mudo, sem mudar
O Sol nasce igual, véi, pra todo mundo
Não vou te prometer mundos e fundos
Eu sei que tudo que vai, um dia volta
E que pra tudo que se faz, vem uma resposta
Eu sigo em frente e me mantenho no bem
Quando eu me perco meus amigos me mantém
Firme no trilho, a gente vai ao fundo
Bem longe do mal do mundo
Ótimo depoimento de Gabriel Thomaz
January 26, 2010 - No comments yet
Ainda sobre a entrevista do Pablo no Inimigo.
O comentário do Gabriel do Autoramas foi muito bacana.
Confira:
Gabriel Thomaz comentou em 23/1/2010 às 10:29
Bom, aproveitando um sábado sem show e dois dias antes de mais uma turnê bem longa, peço licença pra gastar um tempo aqui lendo tudo isso aí em cima e dando minha opinião sobre o assunto. Me sinto bem à vontade pra falar sobre isso, pois sempre fiz parte dessa parada independente no Brasil, desde lá daquela época q minha primeira banda vendeu 2500 fitas K7 gravadas uma a uma no som do meu padrasto. Faz tempo, eu tinha a idade da Malu Magalhães.
Com o Autoramas nós já fazíamos tudo isso q o nosso amigo Ney relatou aí sobre o Macaco Bong, mas desde 2002, 2003. A primeira banda de fora de Cuiabá que o Pablo Capilé levou pra lá foi o Autoramas, deve ter dado uns mil pagantes. E foi um esquema muito bem feito, com cachê, passagens, hotel, rango delicioso. Mas não foi só ir pra lá e aproveitar: Organizamos uma turnê, fizemos tudo por terra. Saímos do Rio, tocamos em SP, depois em Londrina, depois Campo Grande-MS (onde uns certos japas nos viram tocar e nos convidaram pra uma turnê no Japão com eles bancando tudo) e finalmente chegamos em Cuiabá.
Levei um choque no palco q eu quase caí pra trás, mas tudo bem. Só assim o lance todo se concretizou. E vieram outros convites, frutos de turnês como essa. Já fizemos uma turnê no Nordeste em 2003, só eu e Bacalhau, sem baixista. Igualzinha a essa do Macaco Bong, 10 shows, 10 dias sem day-off (desde essa época temos uma média de 90 a 100 shows por ano). Mas ganhamos o nosso em todos os shows, por um lado foi até bom termos ido em duas pessoas, sobrou um cascalho a mais pra cada um.
Só pra resumir: Trabalhar é muito bom, viajar, tocar, ver coisas boas e ruins é muito bom pra qualquer pessoa. Mas tem que ganhar alguma coisa sim. Só assim as bandas vão continuar, fazer uma carreira. Quantas bandas boas acabaram nos últimos dois anos? E algumas dessas eram bandas q trabalhavam sim, não só dessas q só reclamam.
Não vou fazer contas aqui, mas músico também tem muito gasto. Aliás, tem até um detalhe engraçado dessa história de conta: Nessa primeira vez q fomos tocar em Cuiabá, foram umas 15 pessoas acender um incenso no meu quarto do hotel, incluindo o Pablo e, acho q o Ney tb, e eu ficava o tempo falando que pras coisas funcionarem tinha q fazer tudo na ponta do lápis. Tive até um flash-back lendo essa entrevista. E continua dando certo: assim consigo viver de música.
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Nota do blogueiro: não estava nesse dia não. Nesse evento eu fui como público, perguntei pro Pablo como fazer pra comprar o cd do Autoramas, ele me levou no camarim, e comprei o disco das próprias mãos do Gabriel. Eu, adolescente, 18 anos, ignorante, peguei o "Ninguém Pode Parar os Autoramas" e falei "essa capa tá zuada, com defeito". Ao qual o Gabriel respondeu, paciente: é 3D.
Dois anos depois eu já era do Cubo e toquei com o Macaco na primeira apresentação da banda fora de MT, no Goiânia Noise 2005.
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Fabrício é meu amigo de fé há uns 12 anos, é uma figura-chave dessa parada toda. Sempre fizemos um monte de coisas juntos e o cara é competente pra cacete, tô defendendo mermo. Sou de Brasília, do lado de Goiânia, toquei lá muito, antes e depois dele se juntar com a Monstro. Antes da Monstro, tocar em Goiânia era se apresentar pros mesmos 20 malucos de sempre.
E, depois da Monstro, é isso tudo q todo mundo já sabe. Já fizemos todo tipo de esquema (de grana, custos, etc) e sempre tentamos ajudar um ao outro, cada situação é uma situação. De repente o q tá faltando nessa parada toda é diálogo, é informação, conexão mais direta…não é sair por aí bradando q é tudo máfia ou q banda não merece cachê.
E ainda suspeito que o Pablo estava falando exclusivamente de bandas iniciantes, que tem muito o q ralar, o q é um privilégio! Ah, se quando eu comecei já tivesse todo esse circuito…
Outra coisa q eu sei, q não é nenhum segredo é q pra uma banda chegar num Festival (eu organizava um, o Ruído)é exatamente a quantidade e a qualidade das coisas q essa banda faz FORA do circuito dos festivais, ou seja quanto mais vc faz, mais é chamado pra fazer as coisas, e, consequentemente ganha mais.









