Terça feira, 21 de Setembro de 2010.

Sinto pelo corpo dores sintomáticas de uma semana indelével em minha vida. O Transborda – Festival de Artes Transversais do coletivo Pegada, foi tudo o que eu nunca imaginei que seria. Desde a primeira reunião de produção até o último acorde de BNegão e os Seletores de Frequência, pouca coisa ocupou minha mente de forma tão intensa e permanente, considerando toda a minha vida.

O começo foi leve e tranquilo. A abertura do Congresso FEM/ES, dia 15/09, no Conservatório da UFMG, aconteceu numa manhã de quarta feira com céu de intenso azul e uma brisa fria, que ajudava a acordar de forma menos traumática. No fim de semana anterior havia encarado exatas 48h numa viagem de carro até Londrina onde toquei com o Festenkois. Foi um bate e volta frenético e que me fez dormir apenas 4h na noite da véspera do início das oficinas do festival.

Caras conhecidas foram aparecendo… Dufrei (Retomada), Rodolfo e Tim (Semifusa), Marcão, Raíssa e Marina (Colcheia), Fred (Vatos) e Fred (77)… Fui ficando à vontade naquele meio, já sentindo a boa vibração que cada um trazia consigo. Aos poucos foram chegando novas caras e fui conhecendo e começando a sentir o que é um congresso regional do Fora do Eixo. Observava os cumprimentos alheios, amizades já de longa data, construídas e reforçadas ao longo dos anos… E mais: companheirismo e confiança transmitidos nos olhares sinceros de todos.

O Congresso se iniciou com a leitura da carta de princípios do CFE. Li introdução e os dois primeiros parágrafos. Foi massa. Me senti parte daquilo. Não que não me sentisse antes, mas me vi definitivamente dentro do FEM, iniciando os trabalhos do Transborda. Mas a calmaria se encerraria ali. O céu azul da manhã ficaria na lembrança como o último momento de tranqulidade na semana de 13 a 19 de setembro de 2010.

Logo na hora do almoço o bicho começava a pegar. Corres de gráfica ficaram comigo já que Lucas e Charchar (os outros com carro disponível) estavam fazendo o atendimento de palestrantes, oficineiros e congressistas. Os problemas começaram ali. Não conseguiram entregar o material completo na segunda. Um defeito na máquina de dobra atrasou tudo. Só tínhamos os cartazes prontos e naquela segunda a noite saímos pra uma noitada de colagem deles pela cidade. Apesar da correria, sorríamos.

Poucas horas de sono e a terça-feira começa com a notícia de que o material impresso ficaria pronto em parte, apenas. O defeito na máquina de dobra da gráfica atrasou vários trampos deles e a gente só conseguiria ter os flyers em mãos no final da tarde. Com os flyers em mãos, passei em casa peguei um colchão que emprestei para a hospdagem solidária no QG do Transborda, um apto. emprestado pelo Leo Moraes para que a gente conseguisse concentrar os trampos ali. Localizado num ponto estratégico, separado por no máximo 10 minutos dos locais chave do festival.

A quarta começa com a expectativa da abertura do Transborda, no Centro Cultural da UFMG. O dia foi de correria com gráficas, compras, documentos… À noite praticamente não vi o show do Dibigode e a intervenção do A b o r d a. Muita coisa pra ser feita e pouco tempo para fazer. Correria total e poucas horas de sono, uma constante nesses 6 dias. O Conservatório da UFMG era como uma ilha de calmaria e algumas vezes recorri aos bancos do pátio interno para descansar a mente, colocar as ideias em ordem e recarregar as baterias. Lá rolaram oficinas, gt’s e outras atividades, então sempre havia gente do FEM por lá. Bom pra trocar algumas palavras e criar novos laços com tanta gente desconhecida por mim. Massa ver também o comprometimento dos oficineiros midialivristas, curtindo cada segundo do trampo. Aquilo me contagiava positivamente e me deixava cada vez mais apaixonado pelo Transborda. Mas ainda faltava uma noção do que exatamente estávamos construindo…

Quinta feira e a expectativa só aumenta. À noite teríamos shows no Studio Bar e fui fazer o atendimento da banda Tereza, de Niterói/RJ, que tocaria naquela noite ao lado dos Vitrolas e do Utopia!. Tomei umas cervejas com o pessoal antes. Galera muito gente boa e com um passado musical, meio negro (hahaha), redimido rapidamente no show que fizeram. Um rock direto, irreverente e uma presença de palco contagiante me desligaram da realidade. Quando vi as horas, pensei: “tenho que estar 6h da manhã na Praça da Estação pra receber os madeirites (que cobririam a fonte esquerda) e as grades (que delimitariam o espaço do festival de acordo com a expectativa de público que tínhamos). Bora virar…”

Deixei os Tereza na casa dos Vitrolas, passei em casa, tomei um banho e parti pra Praça. Lá, Lucas já me esperava e o time da Grako Som descarregava de caminhões tudo o que viria a ser os palcos conjugados, a iluminação e a estrutura de backstage. Enquanto as grades e o madeirite não chegavam, fui fazer compras para esse batalhão. Pão com manteiga, refrigerante e café foi o rango matinal.

Eu ia observando a montagem de tudo. O palco ia tomando forma e eu começava a ter noção do tamanho que o Transborda poderia adquirir ao longo desses 3 dias de shows na Praça. Uma estrutura enorme ia se desenhando, crescendo como uma massa de bolo no forno. E uma ponta de medo tomava conta. “E se aparecesse mais gente do que o previsto? E se não aparecer ninguém e essa estrutura toda fizer parecer ainda mais vazio? Foda-se, cara… vamo que vamo! Pensamento positivo. Vai dar tudo certo. O alvará saiu a tempo. O público vai aparecer. As grades já estão colocadas; deu certinho, viu? Cadê os madeirites? PQP! CADÊ OS MADEIRITES????”

Fui almoçar mas não consegui. No caminho tive que ajudar em algumas coisas. O cansaço da noite virada já pesava forte e não havia opção de descanso. Nesse meio tempo, me liga o Lucas informando que os madeirites haviam chegado (UFA!) mas que a quantidade tava MUITO abaixo do que precisava (COMO ASSIM?!?). Segui pra Praça levando comigo Santinho (de Juiz de Fora) e Leo Santiago (Fórceps). Chegando lá, vi o tamanho da naba voadora que se aproximava: não tínhamos madeirite suficiente pra cobrir nem 1/10 das fontes. Meus caros, nesse momento bateu o desespero. Todo mundo teve o seu. Esse foi o meu. Era minha responsa. A área de 20m² que me foi passada era totalmente equivocada. A fonte tem 530m² e isso iria acarretar num gasto extra de aproximadamente 9.000 reais (os quais não tínhamos) caso fôssemos comprar mais madeirite. Liguei na empresa. Eles não tinham o suficiente no estoque. Não indicavam outras também para não favorecerem a concorrência. Estava no meio da Praça da Estação, com a bateria no celular acusando que ia acabar a qualquer minuto, sem uma lista telefônica, sem uma solução. Pensei em lonas de construção. Orcei. Baratíssimas, mas são pretas e transformaria a praça num forno a céu aberto. Ligamos na ASMARE. Vamos cobrir com papelão. No FIT fizeram isso e foi de boa. Bora!

No caminho, Lucas me liga novamente. Achou uma loja que vende bobinas de papelão. É só desenrolar por cima das gradinhas que ficam no chão. 3 bobinas e meia, muita fita adesiva e 2h de trabalho depois, as fontes estavam protegidas a tempo.

Finalmente saí pra almoçar. O palco já tinha seus contornos definidos, faltando apenas subir a estrutura superior com as luzes e com os banners de fundo. Fui com Santinho rangar umas fatias de pizza, descansar a cabeça e recarregar as baterias. Quando voltamos, por detrás das fontes que não estavam protegidas, lá estava o palco montado, com os banners de fundo. Confesso que arrepiei e segurei as lágrimas pela primeira vez.

O atraso na montagem do palco se deu devido à demora na liberação do alvará. Os shows começaram por volta das 21h e apenas Cães do Cerrado (BH), Cidadão Comum (Rib. das Neves) e Leptospirose (Bragança Paulista) tocaram, em função do tempo escasso. De lá a festa seguiu pro Nelson Bordello, mas eu fui pra casa repor o sono devido pela noite virada. Só consegui curtir o Leptospirose.

Sabadão era dia de retocar a cobertura de papelão. Com certeza havia algo a ser reparado mas não acreditei quando vi TUDO REVIRADO devido à ventania da noite. Sinceramente, amigos, não foi algo que me deixou tenso pois a força de trabalho do FEM é algo que realmente se afirmou e reafirmou ao longo de toda a semana e rapidamente as pessoas se prontificaram a ajudar nessa missão de recolocar tudo no lugar, em pleno meio dia, sem vento, sem sombra e com pouco tempo. O trabalho foi chato mas relativamente fácil, o que me deixou satisfeito com a solução encontrada para essa proteção. O papelão resistiu bem às aproximadamente 800 pessoas do primeiro dia e eu estava bem confiante pro segundo dia, pois seria um dia de bandas que não gerariam um frenezi suficiente para destruir tudo. Falso engano. Uma ventania repentina começou e, chegando em casa, temi pelo pior. No sábado, só vi partes de shows dos Mekanos (Poços de Caldas), 4Instrumental (Sabará), Vendo 147 (BA), e Júpiter Maçã (RS).

No domingo acordo já sabendo que teríamos que “reaproveitar” o que estava inteiro. Mas não acreditei na cena que vi quando cheguei lá. A parada tava TOTALMENTE DESTROÇADA. Tipo campo de batalha. TIPO MEU PIOR PESADELO REALIZADO. Pra piorar, uma ventania chata tirava do lugar o que a gente tentava fixar. Tava impossível e a gente realmente se viu meio sem saída naquela hora. A loja das bobinas de papelão estava fechada. Só nos restava tentar pregar no chão o que desse. Decidimos por recortar o papelão e proteger apenas as fontes de fato (buracos no gradil de onde sobe a água). Compramos uma porrada de fita adesiva. Nesse dia, mais ajuda da galera do FEM e das bandas Monograma e Cães do Cerrado. Terminamos o trampo cerca de 20 minutos antes de começar o primeiro show do dia, Vandaluz (Patos de Minas) que perdi quase inteiro pois saí pra rangar e consegui ver o show inteiro do Manolos Funk (Vespasiano). Daí pra frente foi só trabalho.

Trabalho árduo se justifica pela auto-cobrança. E isso a gente sempre teve muita. Desde a aprovação do projeto levamos pedrada de vários lados. O valor captado, a curadoria, o local, os dreads do Charchar. TUDO que pudesse gerar polêmica entrava na pauta dos descontentes e dos recalcados, que só reclamam da vida e esperam um milagre acontecer. Nós do Pegada e do Fora do Eixo não esperamos. A gente pega e faz. E se a gente não sabe, viramos alunos. Se a gente sabe, viramos professores. E quem quiser chegar junto é bem vindo. E segue a luta…

Ao longo do domingo, virei pedreiro. Ajudava onde precisava. Sem função específica, quebrei galho em quase tudo. Fui roadie, cuidei da instrumentoteca, fiz compras… Nessa correria, perdi o show do Eminence. Ao lado dos Manolos Funk, era o outro que eu queria MUITO ver. Mas não deu. Porém, não me importo. Quando voltei do supermercado, onde fui com Lorena (Pegada) comprar mais alguns fardos de cerveja para abastecer o final do festival, o clima já não era de tensão mais. As coisas já caminhavam para um final feliz com todos em seus postos, com tudo sob controle, já sorrindo, se abraçando, festejando a paixão pelo que fazemos e pelo que construímos ao longo desse festival. Momentos antes, a banda Monograma convida a todos do Pegada para o palco, onde celebramos, aliviados, diante de nossa amada cidade, a certeza de que juntos – coletivo e população – fizemos história ao longo desses 6 dias. Segurei, pela segunda vez, as lágrimas e abracei a todos que vi pela frente.

O Transborda deixou um vazio na alma. Já sinto falta das pessoas que se tornaram minha família ao longo da semana de 13 a 19/09 de 2010. Já sinto falta do palcão imenso, embasbacante. Da Praça da Estação, objeto de polêmica entre a sociedade civil e poder público. Da programação tão variada e que me encheu de orgulho por ter sido talvez a mais democrática da história de Belo Horizonte.

Mas a sensação de dever cumprido vai preechendo esse espaço e a vontade de fazer mais já é imensa. E o melhor é saber que temos uma rede ao nosso lado. Todos nós, transbordantes, não vamos parar.

Por Luiz com Z

PS: o Transborda realmente me deixou desorientado e tive que corrigir algumas referências temporais. Espero que tenham curtido o texto :)