No primeiro semestre do ano passado,  em meio as vivências e experiências do Independência ou Marte e do Massa Coletiva, passei a me interessar mais na relação com os loops e sobreposições de sons, de maneira a criar diversas expressões musicais à partir disso. A maioria delas eram muito efêmeras, como os momentos daquelas introspecções. Aos poucos, fui abrindo esses sentimentos e transformando-os também em algo com mais cores e ritmos, alguns mais cadenciados, outros com o beat mais  downtempo em viagens mais etéreas. Em um processo bem lento, fui mostrando essas ideias para as pessoas mais próximas, vez o outra registrando de alguma maneira.


 

No meio do ano, junto a uma forte vivência com os parceiros da banda Malditas Ovelhas!, comecei a trampar mais diretamente com o Zeguila (batera), em viagens a partir de guitarras loopeadas, samples e percussão, lidando com uma certa retroalimentação dos sinais, gravando nós mesmos nos ensaios e resignificando isso tudo. Em um primeiro momento montamos algo bem simples e sincero para uma instalação no lançamentio do Festival Contato daquele ano. Na mesma época, fiz uma esquete do Mago das Guitarras Espaciais na primeira sessão do Vaudeville do Século XXI:



Mas no segundo semestre, a vontade seguiu forte e fomos amadurecendo este trabalho, que depois de um tempo iniciamos a chamar de Máquina Esquizofônica:

" Então é necessário mudar a chave do processamento e fazer a Máquina regurgitar os sons. É hora de reler não só o mundo, mas principalmente a si próprio, de maneira intensa e constante. Assim, amostragens, fragmentos, e devaneios frenéticos começam a ser organizados de maneira a sensibilizar as camadas da percepção. O processo de registro e repetição das células musicais ganha então o sentido de mantra, ritual que transcende os corpos, pensamentos e comportamentos. O diálogo realizado através de mensagens que fogem do plano terreno, concreto, e busca uma significação que beira o campo espiritual. Beats sequenciados, riffs em loop, frases sensivelmente melódicas e densas camadas de efeitos; a música buscando se comunicar não só com sua organologia, mas na estética possível das frequências simuladas de outros universos e a expressão de sentimentos profundamente interiores.”


Nossa perversão sonora era intensa e, contornando alguns hiatos por viagens e outras questões pessoais, seguimos com o projeto e decidi ficar a virada do ano em São Carlos para gravar os sons que tínhamos até o momento. Veio a idéia de um EP com 6 faixas, da qual gravamos 3 naquela semana, em um laboratório low-fi, em busca de uma sonoridade sincera àquele momento. Daí rolou um processo de imersão absoluta na Sede do Massa, mais especificamente em uma sala que depois passou a ser intitulada ZenStorm (por ser o lugar que inspirava a criação e único espaço a se proteger de verdade da forte chuva que caiu naqueles dias).


Porém, o mergulho tão profundo fez com acabasse um pouco do fôlego e rolasse uma autocrítica disso tudo que estávamos fazendo. Junto a preferência do foco em outros horizontes do processo e o surgimento de outros projetos, congelei os sons até o meio deste ano, quando reencontrei uma inspiração e nova maneira de abordar eles. A idéia (que na verdade já estava presente desde o início) é de transformar isso tudo em processos de criação mais abertos e poder incrementar mais elementos à partir das bases, como por exemplo o saxofone. Fizemos uma apresentação de algumas dessas intenções no Vaudeville do final de agosto.

 

 

Nesta mesma época, finalizei os sons gravados na virada do ano, motivado a me inscrever no Rumos Itaú Cultural/Música na categoria Coletivo.


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Daí a surpresa bem grande com o resultado da aprovação na seleção que teve cerca de 2.700 inscritos, servindo como um puta estímulo para afirmar o que sei que estou em busca de realmente me focar nos processos criativos em música, entrar de cabeça nos meus sonhos e trocar experiências com quem houver sintonia de verdade. A partir deste edital, vou me juntar a outros músicos de diferentes bagagens, faixas etárias e estilos de vida, mas me sinto tranquilo pra aprender e contaminar não só com a linguagem musical, mas com tudo que vamos cultivando neste processo coletivo aqui em São Carlos e em todo o Circuito Fora do Eixo.

E assim, a busca é por transformar as idéias que nascerem em frutos de uma inteligência e sentimento que não faça sentido somente para mim, como achava no início. Aliado a todo o processo de composição destes trampos e tudo que for acontecendo, vou soltar algumas pistas abertas, para quem se interessar em remixar e utilizar como samples à partir destas matérias-primas.
A primeira faixa que faço isso se chama Sindhu. BAIXE AQUI

E ao longo do tempo vou registrar em posts e outros materiais todo esse aprendizado para que ele passe a fazer sentido cada vez mais para novas pessoas, que tudo isso tenha uma vida própria e todos possam se sentir parte.