por Alex Antunes | Nagulha | São Paulo-SP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gil revê a edição especial JA & GIL (71), trazida pelo DJ Tudo (comigo e Cláudio Prado - foto André Motta

 

Nesse momento, eu estava na sala ao lado, com o Cládio Prado. O Cláudio apurou o ouvido, e perguntou: “Você está ouvindo o que está acontecendo?”. Gilberto Gil entendeu o arranjo do Macaco Bong para “Aquele Abraço”, e começou a revisá-lo. Mas com uma total perspectiva… do próprio Macaco. Tipo Gil foi buscar o Macaco Bong, no território do Macaco, para achar um lugar comum. Gil relendo o Macaco relendo Gil. Um soberbo exercício de não-ego. Ou talvez de um ego calibrado com sabedoria, estética e afetiva. De um jeito ou de outro, funcionou.

 

A partir daí, o ensaio (o próprio show Futurível, na verdade) começou a ganhar sua perspectiva real. Porque até então era um conceito. “A Tropicália de Gilberto Gil, inspirada nos modernistas antropofágicos, vem conferir o que a mais notável banda do Circuíto Fora do Eixo tem a dizer” – ou, em um frase, “Onde a contracultura chegou hoje”. Belo conceito.

 

Mas o santo bate, ou não. E bateu. A música seguinte, “Omã Iaô” (lado B do compacto “Aquele Abraço”, em 69), arredondou instantaneamente. A sensação de habemus espetaculum sucedeu a tensão anterior. E a destreza do trio, por menos que eles saibam (no fundo eles se consideram uma banda de rock com raízes nos anos 90), tem algo de jazz fusion.

 

Naquele sentido de que, em meados da década de 70, alguns compositores da música brasileira montaram bandas com bons músicos que vinham do fusion e/ou do progressivo, que por seu turno vinham da psicodelia – foi o caso de Walter Franco, de Milton Nascimento, ou mesmo de Elis Regina (com seu marido Cesar Camargo Mariano, que é autor do grande disco brasileiro de fusion). Também deu em algumas cagadas, como o 14 Bis, mas aí já é outra conversa.

 

Macaco e Gil, na quase instrumental “Omã Iaô”, escancaram esse lado jazz-prog do grupo. Que aliás já tinha quase vindo à superfície no show do Macaco Bong no Auditório Ibirapuera e do Conexão as Vivo este ano, em momentos das participações da rabeca de Siba (fragmentos de King Crimson? De Mahavishnu Orchestra?), dos metais dos Móveis Coloniais (de Van Der Graaf?), do piano de Vitor Araújo (de Miles Davis? Ou Frank Zappa, ou Return to Forever, e por aí vai). Nada mau para uma banda pós-Nirvana.

 

De uma batelada só, “Bat Macumba”, “Cérebro Eletrônico”, “Essa É Pra Tocar No Rádio”, “Palco” e “A Ema Gemeu” se sucederam, com naturalidade. Sete músicas (drasticamente) relidas em cinco horas. A maior parte delas ficou redondinha – para o encontro de hoje, só “Bat Macumba” precisa de mais ensaio nas acentuações que vão mudando enquanto a frase “bat macumba o ê ê/ bat macumba obá” vai perdendo e ganhando sílabas (por sinal o mesmo procedimento poético adotado por Walter Franco depois, também com grandes resultados, em “Mamãe d’Água”). E “A Ema Gemeu”, que precisa de um pequeno acerto entre banda e cantor no tom (estava rolando uma breve dissonância numa passagem).

 

“A Ema Gemeu”, aliás, é um caso à parte: ficou inesperadamente pós-punk, uma coisa “The Cure interpreta João do Vale”. Seria non sense, se essa ema não fosse praticamente o corvo de Edgar Allan Poe, com uma queda pessimista, quase gótica, que encontrou no arranjo sombrio do Macaco Bong uma moldura adequada.

 

Gil, intuitivamente (porque nunca ouviu nada do Macaco Bong antes), declarou depois do ensaio que o resultado sonoro era algo nem exatamente Gilberto Gil nem exatamente Macaco Bong. Acertou na mosca. A soma das partes está dando numa terceira coisa. “Cérebro Eletrônico” e “Essa É Pra Tocar No Rádio”, se não é sacrilégio dizer isso, estão saindo redescobertas e revalorizadas. E “Palco” ainda deve ganhar um saxofone (do saxofonista Marcelo Monteiro da banda deo DJ Tudo).

 

O ensaio do dia 8 foi gravado, e ouvido pelo diretor musical de Futurível, Alfredo Bello, o DJ Tudo, assim que chegou ao Brasil, no início da noite do dia 9. No ensaio de hoje, dia 10, Alfredo diz que espera que os músicos já estejam familiarizados o suficiente para transcender as execuções corretas, respeitosas, e explorarem com desenvoltura a dinâmica das execuções. Uma ou outra particípação pontual pode ser escalada, mas a maior parte do momento Macaco Bong + Gilberto Gil do espetáculo deve ser mantido no osso, power trio mais voz, rock’n'roll. E Gil diz “I like it”.

 

Alfredo, de manhã, ainda achou tempo para ir garimpar vinis numa loja em uma galeria de Copacabana. E, surpeendentemente, achou uma edição especial do álbum de 69 de Gil (exatamente de onde saíram “Aquele Abraço”, “Cerebro Eletrônico” e “Vitrines”), chamada JA & GIL. JA, ou Jornal de Amenidades, era um semanário carioca editado então por Tarso de Castro. Em 71, Tarso editou essa espécie de álbum-fanzine, de onde constam, além do álbum, um texto do próprio Tarso, um texto de prosa poética de Capinam, um bilhete de Bethânia para o parceiro, opiniões do público sobre o cantor (que se encontrava em Londres). E uma reprodução de uma matéria “Um novo Som: O Afro-Gil” sobre um show de Gil em Londres. O detalhe é que a matéria foi retirada da Veja – que então era uma boa revista -, de tom simpático e pluralista com o tropicalista no exílio.

 

Perguntamos a Gil se ele ainda tinha essa edição. “Na casa de Sandra, talvez”, disse ele, se referindo a sua ex-exposa. No momento em que escrevo, Gil e a banda acabaram de passar “Vitrines”, e atacam “Aquele Abraço” com entusiasmo. Vou lá assistir, para escrever o próximo post.