por Gabriel Cardoso | Lumo Coletivo | Recife-PE

Congressistas no Banco de Palmas


Desde novembro de 2009, com a adesão de novos pontos Fora do Eixo em Salvador, Vitória da Conquista, Aracaju, Maceió e Campina Grande começamos a ter no Nordeste uma perspectiva regional de fato. Mesmo tendo pontos em Fortaleza, Natal, João Pessoa e Recife, a necessidade de ampliação do diálogo para entender as demandas verdadeiramente regionais e como poderíamos atuar com nosso modelo sócio econômico solidário de forma ampliada era latente.

Nosso primeiro projeto conjunto com os nove pontos integrados foi a I Tour Nordeste Fora do Eixo, carinhosamente chamada de turnê dos bichos, por onde passaram os Macaco Bong, Burro Morto e Porcas Borboletas. Notadamente o nível de abertura com os coletivos com um projeto sendo pensado entre todos, tanto os mais antigos na rede quanto os recém aderidos, aumentou bastante, e junto com a abertura o estímulo.

Em abril fizemos nosso primeiro encontro Nordeste Fora do Eixo e demos um próximo passo. Diferente das turnês, onde cada coletivo se articula localmente para operar,  no encontro todos se locomoveram para Recife para pensar nosso planejamento regional. Esse contato presencial possibilitou uma visão ampliada do que o Nordeste Fora do Eixo poderia trabalhar conjuntamente, principalmente com a institucionalização dos Pontos de Referência Estaduais e consequentemente os indicativos de interiorização das ações.


Painel: Olhar para América Latina: Organizações culturais na América Latina


Esse processo contínuo de encontros, diálogos e formulação de agendas comuns trouxe mais claramente para todos os coletivos integrados o entendimento de que a gestão regional de referência precisa ser compartilhada em sua essência. Assim, ao início da pré-produção de todos os 6 congressos regionais, no Nordeste se formou rapidamente a comissão gestora que assumiria a demanda de produzir esse nosso maior encontro presencial até então.

O formato de Congresso trouxe uma carga intensa de vivências, que de várias formas tendem a impactar culturalmente quem antes mantinha um contato prioritariamente virtual. Na Etapa Nordeste, essa carga de impacto se adensa ainda mais à medida que todos se hospedariam no mesmo local e tudo aconteceria dentro da Feira da Música de Fortaleza, que esse ano também passou por um processo de ressignificação forte, ocupando um novo espaço físico e propondo como tema o duplo olhar para o Nordeste e para a América Latina. Esses olhares proporcionaram a ida de algumas peças chaves a Fortaleza. O pesquisador e professor da Universidade de Miami George Yudice, sua parceira e também pesquisadora na área da cultura Sylvie Duran nos apresentaram um panorama de como andam as construções de redes culturais na América Central e quais as interfaces com o Circuito Fora do Eixo. As possibilidades de interação são muitas e com toda certeza em breve dialogaremos mais fortemente com toda latino-América.

Presenças importantes também foram as dos gestores públicos Gilberto Monte (coordenador de música da Fundação de Cultura da Bahia), Rafa Cortes (coordenador de música da Fundação de Cultura de Pernambuco), Edgar Andrade (núcleo de Economia Criativa da Fundação de Cultura de Pernambuco) e Tarciana Portella (representante do Ministério da Cultura no Nordeste) que contribuíram muito para o debate, clareando mais ainda o processo de construção de políticas públicas para Cultura pros nossos coletivos presentes em uma das mesas do Congresso: “O artista como ente político”, ao lado de Linha Dura (Cufa - MT), Ivan Ferraro (RedeCem/Feira da Música/Fora do Eixo/Abrafin - CE) e Talles Lopes (Goma - MG).

Não menos preciosa foi a participação de coletivos de outras regiões. Pablo Capilé (Espaço Cubo - MT), Talles Lopes (Goma - MG), Caio e Tubarão (Difusão - AM), Bruno Poljokan (Amerê, Toque no Brasil - SP) e também a regional Norte representada pelos Mini Box Lunar (Palafita - AP).

 

 

Stands da Feira da Música

 

Provavelmente não teríamos melhor momento ou espaço do que a Feira da Música de Fortaleza para sediar nosso Congresso Regional. O stand Fora do Eixo foi muito bem movimentado com o núcleo Nordeste de Distribuição. Vários produtos legais sendo difundidos e um lugar fixo para reuniões do núcleo, troca de idéias e esclarecimentos acerca dos trabalhos do Circuito. Sediar o congresso em Fortaleza deu-nos também a oportunidade de ouro de visitar o Banco Palmas, que foi fundamental para o esclarecimento sobre as tecnologias da Economia Solidária e como isso pode transformar a realidade de um bairro todo com mais de trinta mil pessoas. Conhecemos toda a estrutura da sede deles e fizemos uma reunião com o Joaquim, coordenador geral do Instituto Palmas, que nos contou todo histórico de luta da comunidade e ainda propôs parcerias para transpormos nossas redes em projetos conjuntos como uma possível ação para a Copa de 2014 que unisse os bancos e os pontos Fora do Eixo. A rede de Bancos Comunitários hoje abriga 51 iniciativas nas mais diversas realidades e em vários estados.

Foram cinco dias com uma carga intensa de trocas de conhecimento. O Nordeste agora caminha a passos mais rápidos e sai de Fortaleza com um foco especial: de solidificação das estruturas coletivas e das rotas para bandas independentes na região, inclusive integrando os dois estados que ainda não compõem nossa rede, o Piauí e o Maranhão. Isso proporcionará não só uma circulação de música, um dos nossos principais meios, mas também de uma grande quantidade de conhecimento, como qualquer outra circulação. E assim, os coletivos nordestinos se abastecem de estímulo para daqui dois meses se encontrarem com todos os outros coletivos Fora do Eixo em Uberlândia, durante nosso Congresso Nacional para pensarmos conjuntamente as possibilidades de futuros desejáveis para nosso país.