por Laura Morgado | Lumo Coletivo | Recife-PE
Há algum tempo, meses, passei por um dia muito significativo dentro desse processo de ressignificação de modelo de vida, que me fez entender que estar aberto a essa mudança é entrar em uma montanha russa de vivências inesperadas e intensas.
Lembro que o dia começou com uma entrevista, as sete da manhã, na CBN. Eu estava a caminho da faculdade. A entrevista falava sobre como as novas tecnologias estavam encurtando distâncias e de como as gerações mais novas tinham uma perspectiva muito orgânica sobre essas novas ferramentas do que nós, filhos do século XX, que presenciamos conscientemente a transição do analógico para o digital. Como exemplo, citou uma criança de 4 anos, filha de uma brasileira com um francês e residente na França. Com os avós maternos, fazia uma videoconferência toda semana. Com os avós franceses, se encontrava presencialmente, mas com menos frequência. A criança era, afinal, afetivamente muito mais próxima da família brasileira. Na cabecinha dela, a distância que condicionava a forma de contato (virtual, presencial) não influenciou decisivamente pro julgamento de quem é que está realmente mais próximo e provocando nela mais sensações de afeto.
Com essa reflexão, cheguei na faculdade e descobri que tinha ido até lá à toa: mais uma vez, o professor havia faltado e esquecido de avisar. Pra não perder a viagem, entrei na biblioteca e vasculhei as estantes procurando algo que prendesse minha atenção. Peguei um exemplar do livro "O que é o virtual?" do Pierre Levy. Logo nas primeiras páginas, o livro parecia dialogar intensamente com a reflexão que eu trazia ainda da entrevista e aprofundar-se nela. É um livro de 1996, mas conceitual ao extremo e por isso não senti como uma leitura datada; era, na verdade, muitíssimo atual.
Mergulhei no livro por horas, tomei notas e fiquei eufórica com as tantas descobertas. Parecia uma chave que foi abrindo sistematicamente os cadeados de vários pensamentos truncados e incompletos que eu carregava, transformando tudo em um fluxo muito límpido de significados.
O primeiro conceito abordado no livro já foi um tapa na cara: qual é a diferença entre o real e o virtual? "O virtual é o que existe em potência, e não em ato. A árvore está virtualmente presente na semente." Era isso! O real simboliza o estático, análogo ao possível. O possível já está predeterminado, é o real que ainda não é - só uma questão de tempo. O virtual não se opõe ao real, mas ao atual. Não é predeterminado, mas um conjunto de problemáticas que tem a força e o intuito para serem solucionadas, mas a transformação dessa potência em ato vai acontecer mediante todas as intempéries, imprevistos, adaptações, desvios e reconfigurações, supõe o uso da criatividade pra desenlaçar os nós até que se cumpra o seu objetivo.
Esses conceitos dizem muito sobre a natureza do agrupamento virtual que é o Circuito Fora do Eixo. Da forma como se desenhou na minha cabeça, nosso território é o nosso nó de questionamentos e problematizações, e nossa força motriz é a nossa potência intrínseca, nossa vontade: o banco de estímulo. Nossa prática diária é desatar nós, articular soluções, atualizar (F5!) os processos pra que virem produtos e ver os produtos trazendo de volta novos horizontes e novas problemáticas, numa espiral de crescimento, e numa dialética de virtualização > atualização > virtualização. O fim desse processo só existe na acomodação, que pressupõe a falta de vontade, o amortecimento da potência.
No livro tem um trecho que fala sobre comunidades virtuais. Fala principalmente como a tecnologia representa exatamente essa busca por soluções a problemáticas que envolvem a potência de toda a humanidade, como a subversão das noções de espaço e de tempo, empecilhos pra que se possa exercer mais plenamente nossa capacidade de comunicação e troca dinâmica de informações.
"Uma comunidade virtual pode, por exemplo, organizar-se sobre uma base de afinidade por intermédio de sistemas de comunicação telemáticos. Seus membros estão reunidos pelos mesmos núcleos de interesses, pelos mesmos problemas: a geografia, contingente, não é mais um ponto de partida, nem uma coerção. Apesar de 'não-presente', essa comunidade está repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades. Ela vive sem lugar de referência estável: em toda parte onde se encontre seus membros móveis...ou em parte alguma. A virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem às antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia.
Quando uma pessoa, uma coletividade, um ato, uma informação se virtualizam, eles se tornam 'não-presentes', se desterritorializam. Uma espécie de desengate os separa do espaço físico ou geográfico ordinários e da temporalidade do relógio e do calendário. (...) Recortam o espaço-tempo clássico apenas aqui e ali, escapando a seus lugares comuns 'realistas': ubiquidade, simultaneidade, distribuição irradiada ou massivamente paralela. A virtualização submete a narrativa clássica a uma prova rude: unidade de tempo sem unidade de lugar, continuidade de ação apesar de uma duração descontínua. (...)
Mas, novamente, nem por isso o virtual é imaginário. Ele produz efeitos. Os operadores mais desterritorializados, mais desatrelados de um enraizamento espaço-temporal preciso, os coletivos mais virtualizados e virtualizantes do mundo contemporâneo são os da tecnociência, das finanças e dos meios de comunicação. São também os que estruturam a realidade social com mais força, e até com mais violência."
Pierre Levy, 1996
Resolvi abordar esse assunto aqui no blog porque recentemente estive na biblioteca de novo, e dessa vez peguei todos os livros do Pierre Levy pra mais uma leitura - agora com uma bagagem diferente, uma nova lente pra analisar. Vou continuar compartilhando aqui no blog as reflexões que forem surgindo!
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