Ensaio_devaneios_digitais_14


Gritos soltos na escurdão vinham invadir aquele ambiente novo, tão distante até então... "Onde estão minhas mãos?" Essa pergunta voltava a ecoar infinitamente em sua mente. "Todos sentiram o mesmo quando passaram por aqui?". Havia adentrado naquela caverna por puro acaso, ficou dias entretido com os brilhos de um caminho de pedras radioativas, quando levantou seus olhos percebeu que estava perdido, sozinho, sem o verde, as arvores, o luar, as estrelas perdidas e soltas por ai no mundo. Onde estavam seus amigos agora?


"Dorme, dorme agora. Encoste seu corpo nu nestas pedras. Relaxe seu corpo, isso desse jeito. Agora eu quero que você feche sua boca, os olhos e procure perceber que estamos todos aqui. Sinta o vento, o cheiro do orvalho noturno, As luas sumiram do céu, está tudo tão escuro, um negro colossal brilhante como o pedaço de um manto divino. O pensamento difuso, solto, perdido... Por ai no mundão gigante e conturbado. Morcegos e outros seres voam livremente. As patas de um gigante animal toca seu corpo agora. A criatura se aproxima, cheira a ti. Seu hálito arde, esquenta seu corpo. Você não quer mais se mexer? É claro que não. Não pode e nem quer."


- ...

- ...

- ...,

- ,!

- ???

- !!!

- aaaAAAAÁÁ!


Quando deu conta de si, seu corpo estava sendo devorado por uma criatura que nunca havia visto. Sua pele negra era devorada pedaço a pedaço. Mas estranhamente ele observava tudo em pé, ao lado de seu corpo e da criatura que havia acabado de enfeitiçá-lo. Virou-se continuou caminhando na direção das pedras radioativas. Sentia todo seu corpo novamente mas agora não havia mais dentro e fora, não havia carne, ossos, sangue, suor ou qualquer outra coisa material. Seu corpo era apenas o pensamento.


Ele caminhou incessantemente, andou tanto que seus pés pareciam ter voltado, lembrou-se de uma poesia que escutara décadas atrás.


As sementes do medo

não brotarão

nos teus olhos inocentes.

Nem a noite

marcará com tinta opaca

teu pequenino coração.

Eu te prometo.

Alçaremos nossa bandeira

muito alto

onde nenhum sapato

pode alcançar.

E brincaremos com o vento,

o arco íris

e cantaremos canções

livres como as borboletas:

Sem bicho papão

nem mula sem cabeça


Estava entrando em um momento novo. Mudanças, mudanças. Já estavam acontecendo e ele não podia entender. Deixo aqui encerrado o fim dessa história. Dormir agora poderá te levar a transformação.


Todas as mulheres cantam o som dessa nova esperança, na mente daqueles que se permitem ouvir.