Calúnia requentada

Em agosto de 2013, a Revista Carta Capital fez uma matéria com uma série de acusações sobre o Fora do Eixo. O momento era de voraz ataque dos grandes veículos de comunicação a rede, pós participação da Midia Ninja no Programa Roda Viva. A Carta Capital se somava a um vasto time de linchadores, e emprestavam seu lastro de esquerda a artilharia pesada sobre nossas vidas.

Passado mais de 1 ano e 6 meses da edição da matéria, nenhuma das acusações feitas pela Revista gerou um só processo ou notificação judicial. Nada foi comprovado. Ou melhor, se comprovou que todo o alarde feito era na verdade sensacionalismo politico e linchamento moral, movido por interesses particulares e preconceitos sobre uma comunidade nova, urbana, mas que ao mesmo tempo vem do interior, do Brasil Profundo, sertanejo, amazônico e tropical, para imprimir sua forma de vida e disputar o imaginário brasileiro.

Além do completo desrespeito a todas as mulheres da Rede Fora do Eixo, a matéria da Carta Capital furtou a nossa rede de apresentar seu ponto de vista. De todas as matérias feitas sobre o Fora do Eixo naquele período essa foi a que mais nos chocou, justamente por expor um tipo de jornalismo tacanho e mesquinho em um importante veículo de comunicação do Brasil, e tão admirado por todo o campo politico que acreditamos. Não era a esquerda e a direita que estavam juntas contra o Fora do Eixo. Era o ódio e o preconceito que estavam juntos contra algo novo e que havia acabado de atingir o centro deste imaginário politico e social, simbolizado pelo programa Roda Viva.

Hoje, o clima não é mais de linchamento público, afinal de contas, muitos já perceberam que o inimigo é muito maior e perigoso. E por isso achamos ainda mais repugnante, que em dias tão difíceis, novos detratores tentem utilizar desta matéria, fruto de um equívoco jornalístico e político, como referência à esquerda para atacar a rede Fora do Eixo. Vale reforçar que o autor da matéria, Pablo Vilaça, nunca visitou uma casa, coletivo ou festival realizado pelo Fora do Eixo, para ter respaldo no que escreve. Sua oposição e critica para nós está num altar, o altar-ego, e nada diz sobre nossas vidas, e sobre o Fora do Eixo. Caso ele realmente tiver interesse em saber como vivemos, como são as nossas relações de gênero, como lidamos com o Estado, as nossas casas e coletivos estão abertos, sempre….

Sobre a matéria, segue os destaques feitos pelo Fora do Eixo na época:

MACHISMO E SEXISMO NA REDE

Estas acusações são gravíssimas e quem as coloca tem que estar preparado para prová-las. Colocações nesse campo, além de serem desrespeitosas, constituem atos de calúnia e difamação. Nos espanta uma revista como a Carta Capital, que conta com jornalistas que já estiveram muito próximos a rede do Fora do Eixo, convivendo livremente com homens e mulheres, traga a tona essas questões. As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um. Diálogos sobre relacionamentos acontecem em qualquer campo da sociedade.

Da forma como a matéria as expõe, todas as pessoas e principalmente as mulheres do  Fora do Eixo estão sendo absolutamente desrespeitadas, com conteúdo fruto de especulação. Ao nosso ver, isso sim,  é de um machismo intolerável.

INDICAÇÕES DE SECRETÁRIOS

A matéria desqualifica de forma leviana a militância pelas políticas públicas da cultura e a legitimidade da sociedade civil que busca ampliar seu espectro da participação política, taxando a prática de lobby.  Nenhum dos nomes citados pela revista atingiram seus cargos através de indicações da rede. Um Ex-Ministro, como Juca Ferreira, não precisa de indicação de ninguém, a reportagem especula e mente. É normal e legítimo, pelo seu destaque na atuação local, que eventuais membros do Fora do Eixo sejam convidados para cargos de gestão pública. Entendemos que para aceitar essa possibilidade o indivíduo deve se desligar da rede, não fazendo mais parte mais do caixa coletivo local e se afastando das esferas de decisão em âmbito estadual e nacional.

FORA DO EIXO E MÍDIA NINJA

Lino Bocchini e Pietro Locatelli tentam criar uma tese de que a Mídia Ninja seja um nome fantasia para driblar supostos desgastes do FDE com outros movimentos sociais. O fato é contestado pelas diversas manifestações de apoio que o Fora do Eixo tem recebido de vários movimentos representativos  como o MST,  Movimento Nacional de Direitos Humanos e de várias  organizações Latino Americanas, mostrando claramente que não temos necessidade de criar nenhum artifício para livrar o Fora do Eixo de qualquer desgaste.

Ainda, nunca houve por parte do Fora do Eixo ou da Mídia NINJA nenhuma tentativa ou esforço de omitir ou desvincular as duas iniciativas, pelo contrário.

Publicamente sempre ressaltamos a relação orgânica dos dois projetos entendendo a Mídia Ninja como uma rede incubada – lógica própria do movimento de Economia Solidária – a partir do Fora Do Eixo. Hoje, dezenas de indivíduos e alguns coletivos trabalham como Ninjas e se sentem, ainda bem, também donos da rede.

RELAÇÃO COM PARTIDOS

As Políticas Públicas não são partidárias. Não acreditamos em política de governo, acreditamos em políticas de estado. O Estado não é o PT e muito menos o PSDB! Alguns partidos estão abertos ao dialogo e outros não, mas as políticas publicas independem deles.

Tentar criar uma relação entre Fora do Eixo e PSDB nesse momento é uma tentativa clara de minar as nossas articulações em campos de movimentos de esquerda. Militantes sérios que estão acompanhando o debate sabem que o Fora do Eixo está em disputa direta com o PSDB seja pelas respostas dadas sobre o tema no próprio Roda Viva ou pela ofensiva judicial que está sendo armada pelo Senador Aloysio Nunes contra a nossa rede.

APROPRIAÇÃO DE BENS

Essa não é uma prática do Fora do Eixo. A abordagem da matéria é caluniosa.

Primeiro, como é um processo coletivo, qualquer pessoa que chega tem acesso a uma série de bens coletivos. A destinação de seus pertences para o uso de todos enquanto se está em uma Casa é um ato livre. Além disso, muitas pessoas chegam sem nada e, a partir do envolvimento na dinâmica colaborativa, recebem bens materiais e equipamentos para desempenhar suas atividades.

Um sinal que expõe claramente que os acordos são feitos com o consentimento de quem faz investimentos de bens ou valores, e que as acusações são oportunistas e visam mais a difamação do que a justiça, é que esses acusadores preferiram tornar a história pública através da imprensa em um momento de alta visibilidade do Fora do Eixo, ao invés de terem nos processado tão logo se desligaram.

VIOLÊNCIA E INTIMIDAÇÃO

A rede não pratica nenhum tipo de violência ou intimidação, até mesmo porque não identificamos nada que poderíamos fazer contra integridade física ou emocional de nenhuma pessoa. São dez  anos de trabalho sem nenhum histórico ou caso registrado de agressão, perseguição ou ameaça. A produção de notícias que façam essas acusações sem provas ou sem serem encaminhadas junto a órgão competentes constituem mais calúnias e contribuem apenas para a alimentar uma narrativa de criminalização dos movimentos sociais.

LIVROS E FILMES

A reportagem mente mais uma vez quando cita o livro “48 leis do Poder” como referência da ação politica do Fora do Eixo, sendo que este não faz parte de nossos repertórios e nem de nossas pesquisas. Especula e mente novamente ao dar destaque ao filme citado por Lais Belini que assim como o livro acima nunca fez parte do debates da rede e nem teve sua veiculação proibida.

Lamentamos que uma revista como a Carta Capital perca a oportunidade de debater de forma mais responsável temas relativos a rede e as práticas do Fora do Eixo como economia solidária, ativismo e trabalho, dinâmicas das redes e de movimentos sociais, politicas culturais, etc.

Vivemos num momento de grandes mudanças. As jornadas de Junho no Brasil, alinhadas a diversos movimentos que correm o Mundo todo hoje, mais as mudanças tecnológicas vividas recentemente nos colocam no olho do furacão, neste processo de mudanças sociais dramáticas, trazidas pelo Digital.

Somos um laboratório de experiência de rede digital único no Brasil e talvez único em todo o mundo. Trabalhamos fortemente nos últimos dez  anos dentro do circuito cultural e a pelo menos três anos estamos num diálogo constante com diversos setores da sociedade brasileira. Fazemos tudo isso de forma aberta e transparente entendendo que somos Beta, e que estamos em processo permanente de atualização. E pra completar tivemos uma enorme visibilidade nos últimos dias com o sucesso e quantidade de questionamentos que a Midia Ninja teve e trouxe.

Como movimento fortemente enraizado nas redes sociais, também recebemos os ônus e bônus de tudo que acontece ali. Ou seja, natural que um movimento que questiona sistemas de representatividade na rede, receba primeiramente os resultados disso. Para nós  essa é uma oportunidade grande de aprendizado para melhorarmos nossos processos. Não temos problema algum em receber a primeira ação tão ostensiva das redes sociais, como gostaríamos que outras entidades, estados e empresas estivessem recebendo, e realmente esperamos que esta experiência possa servir para que avancemos na construção das novas formas de participação e controle social trazidos pelo Digital.

Somos o pretexto pra um grande debate que precisava ser travado, estamos felizes de poder ajudar a levantar temas e discussões tão importantes para sociedade. Seguimos firmes e acreditando que, com esse processo, avançamos para aprofundar entendimentos e ajudar que o Brasil encontre novos caminhos.

NÚMEROS DO FORA DO EIXO

A Matéria insiste na tese mentirosa que o Fora do Eixo aumenta os seus números. Para defender seu ponto de vista, a Carta Capital desconsidera todos os coletivos para além das Casas, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza e Manaus e afirma de forma desonesta que a rede conta com no máximo 70 pessoas.

O próprio texto da Carta Capital cai em contradição quando acusa, falsamente, a atuação da rede em relação a indicação de secretários em estados como Acre e Rondônia, onde o FdE possui um histórico efetivo  de construções e atividades.

Eventos como o festival Grito Rock foram realizados de forma integrada em mais de 400 cidades de todo o mundo e a Rede Brasil de Festivais tem mais de 130 eventos em todo o país.

Para efeito de conhecimento colocamos aqui também as respostas dadas pela rede Fora do Eixo a Revista que a Carta Capital nos enviou na época da matéria e que foram  completamente descartadas pela edição.

Entrevista Carta Capital

– Dos 7 ex-integrantes do Fora do Eixo que a CartaCapital ouviu, só dois aceitaram ser identificados. Os demais se sentiram intimidados e têm medo de retaliações por parte de membros do Fora do Eixo. Ao que vocês atribuem o medo que essas pessoas sentem? O que vocês diriam para esses e outros ex-integrantes?

Diríamos que ninguém precisa ter medo de nada, e que muito nos espanta este tipo de declaração. Inclusive, chega a ser estranho esta reação sendo que todas as pessoas que passaram pela rede sempre puderam colocar estas angustias quando estavam dentro dela. A rede não pratica intimidação, até mesmo pq, o que poderíamos fazer? São 10 anos de trabalho sem nenhum histórico de violência ou perseguição para que as pessoas não se identifiquem. Isso é muito sensacionalismo. Talvez a não identificação esteja muito mais ligada as dificuldades de sustentar para si e para o setor cultural como um todo, do que medo de perseguição. O que as pessoas não colocam em perspectiva é que estas pessoas que hoje estão fora, viram no FDE uma possibilidade de realizar as atividades que desejam e se posicionar profissionalmente. Não dar a cara, é justamente mais do que evidenciar uma possível perseguição do FDE, é ter que revelar também o que elas ganharam com esta convivência. Elas participaram de um processo consentindo com a forma como ele se organiza, utilizaram-se das relações que estabeleceram ali dentro, e de repente tem medo de retaliação. Estranho. Uma prova de que esse questionamento é improcedente é que a maioria das pessoas que saem do FDE vão trabalhar com outros parceiros da rede, ou grupos que mantém dialogo conosco, como o próprio caso da Lais, que saiu da CASA SP, e foi trabalhar com o Outras Palavras, que ela conheceu justamente como membro do FDE. E podemos te dar diversos exemplos como esse. Levantar estas questões de forma difamatória, sem citar as pessoas e os casos de perseguição não é a melhor forma de se fazer. Não temos um braço armado, não temos casos de violência, não somos o estado, e não somos consenso no setor cultural pra fechar portas, ao contrario, o que se vê é um debate intenso com diversas opiniões diferentes sobre o nosso trabalho. Que retaliação ou perseguição poderíamos fazer? Emitir nossa opinião sobre o que achamos destas pessoas se perguntados? Isso tá todo mundo fazendo, sem nem conhecer o FDE, e não vimos pergunta alguma questionando se o FDE estaria sendo perseguido.

– Além da bilheteria e dos editais, há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo. Segundo ex-integrantes, o uso do cartão de crédito e a apropriação de bens como computadores ou automóveis são práticas usuais. Isso é uma prática sistemática da organização e apoiada por vocês?

Não, isso não é uma prática sistemática nossa. Muito nos impressiona, que todas as perguntas e questionamentos que tem chegado não exploram a nossa forma de se organizar, mas buscam enquadra-la e criminaliza-la como se fosse um modelo convencional de empresa. Primeiro, como é um processo coletivo, esta pessoa que chega já tem acesso a uma série de coisas que já existem. A destinação de seus bens para o uso do processo é um ato livre. Se vc tem um carro e vem para uma casa, é natural que este carro seja usado, até pq ja tem muita gente disponibilizando coisas para que o processo exista e se realize. Se vc tem um cartão de credito e quer disponibiliza-lo pra ações da rede a mesma coisa. Não tem uma pratica sistemática de apropriação, tem um processo que gera consensos e consentimentos livres e esclarecidos. Da mesma forma que muita gente chega sem ter nada e a partir da construção coletiva e colaborativa bens materiais são disponibilizados para esta pessoa desempenhar suas atividades e se realizar. É importante ficar claro, o Fora do Eixo trabalha com a perspectiva de propriedade coletiva e compartilhada, com definições claras para o acesso pessoal. Não é a acumulação material que caracteriza a base de nossas relações. A chave para entender isso não está numa leitura maniqueista ou na abordagem que tenta ver o fora do eixo como uma empresa capitalista. É muito desonesto, principalmente para pessoas que participaram deste processo e fizeram suas escolhas, partirem pra uma criminalização depois que se desapontam com uma experiência consensuada e em permanente negociação. Não existe sequestro compulsório de bens e é um absurdo a Carta Capital afirmar em uma pergunta que “há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo”. Não existe apropriação nenhuma desses itens. As pessoas que saem do FDE, levam juntas seus cartões, computadores, automóveis e tudo o que é seu de direito. Se nos apropriássemos estaríamos com estes itens até hoje.

 – O FdE começou a receber dinheiro público durante a gestão do tucano Wilson Santos em Cuiabá. O que mudou para o coletivo hoje em dia descartar o apoio do PSDB?

 Para responder esta questão, é necessário contextualizar o processo, para não se colocar na armadilha, sugerida pela pergunta, de que algum outro tipo de acordo teria sido feito. Inclusive isso foi pauta tanto do Roda Viva, e da revista Veja e de outros veículos, que tem buscado atrelar a rede Fora do Eixo a uma outra organização partidária. Acreditamos que é possível se fazer uma outra abordagem jornalistica  diferente, sem sensacionalismo e mais honesto, se a pergunta for direcionada para a forma que novos movimentos podem estar olhando para o Estado e as formas de representação.  A relação com o prefeito Wilson Dias era local, feita a partir de um contexto de luta por mais recursos para a cultura independente na cidade de Cuiabá. Sempre defendemos que os coletivos e agentes culturais devem se organizar e lutar por politicas publicas para o setor, e isso é uma luta do território. Neste sentido, os coletivos nas pontas, em suas cidades, estabelecem dialogo e buscam recursos com prefeituras de diversos partidos. Não existe um direcionamento da rede pra dialogar com X ou Y, mas sim pra trabalhar pela organização do setor na sua cidade. Estes recursos citados na pergunta eram para a realização de um festival de música e passavam por editais e processos transparentes que envolviam conselhos e curadorias públicas. Da mesma forma que em centenas de cidades brasileiras os produtores buscam recursos para realizar suas atividades, e isso se dá em diversos níveis diferenciados. Outra coisa, é uma discussão nacional, onde se discute politica de forma mais ampla, e neste sentido temos todo o direito de emitir nossa opinião, como rede e como indivíduos. De qq forma, isso não significa que vamos deixar de debater e participar de processos públicos onde o PSDB governa. Se o governo de Minas, ou de São Paulo, abre um edital público para a cultura, nos achamos no direito de participar, sem que pra isso tenhamos que ter um alinhamento politico ideológico com o PSDB.

Acreditamos que boa parte dos questionamentos como esse vem do pouco conhecimento que as pessoas e jornalistas ainda tem do modelo de financiamento e funcionamento da produção cultural no Brasil. E mais do que isso, de uma tentativa de explicar novos processos a partir de uma visão patrimonialista que caracteriza muitas vezes o Brasil. Não é porque historicamente Midia e alguns movimentos foram cooptados politicamente, que nós sejamos. A alternativa de disputar meios de produção e experimentar novas formas de vida coletiva, são justamente rotas de fuga criadas para construção de uma autonomia politica. Muito nos surpreende que estas alternativas estejam agora sendo questionadas moralmente, num debate desrespeitoso e difamatório, com uma organização que se coloca aberta e transparente. Os governos passam, os editais são públicos e os produtores e agentes culturais pra dar continuidade a suas atividades não podem se furtar de participar destes processos. Ao contrario, existe uma grande luta e que o FDE tem se dedicado fortemente a ela, assim como diversos outros grupos e movimentos culturais brasileiros que é pela qualificação dos processos de participação social e financiamento na cultura. Esse é o ponto principal e que muitas vezes não é abordado. Deveríamos estar aproveitando o debate em torno do Fora do Eixo para ampliar as discussões sobre estes temas tão importantes para a cultura brasileira, e esperamos que nossa extrema exposição nos últimos dias, mas do que reproduzir um falso moralismo posso enfrentar estas questões de frente. Temos plena convicção em afirmar que a forma que o FDE se relaciona com o processo de financiamento é transparente e legitimo e não difere da prática de tantos agentes culturais brasileiros. A própria forma que estamos nos posicionando diante deste ataque virulento deveria bastar pra evidenciar isso, com um esforço ainda mais de transparência e disponibilização de dados.

– CartaCapital colheu diversos relatos do uso sexual de mulheres para atrair novos integrantes ou parceiros para o FdE. E, em menor número, de homens. Seria proibido pela direção não apenas namorar pessoas de fora da casa, mas também namorar alguém “de dentro” de forma espontânea, já que seriam relações que “não trazem ativos” para a rede –sempre de acordo com relatos de ex-integrantes. A cúpula do FdE decide quem deve namorar quem, como parte de uma estratégia de crescimento interno? A prática, que teria até nome (“catar e cooptar”) faz parte da estratégia da rede?

Estas acusações são gravíssimas e quem as coloca tem que estar preparado para provar. Temos plena convicção que isso, além de ser uma grande mentira, é um ato gravíssimo de calunia e difamação, e muito nos espanta uma revista como a carta capital, que inclusive tem jornalistas que já estiveram muito próximos a rede, trazer a tona uma calunia, sem provas. As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada individuo, a partir dos desejos de cada um. Sem o nome de “várias” não é jornalismo. É baixaria. E as garotas que vivem nas casas Fora do Eixo estão sendo absolutamente desrespeitadas com este tipo de especulação. Isso sim que é de um machismo intolerável.

– MPL, DAR, MH2O, Mães de Maio, moradores da Favela do Moinho, o Cordão da Mentira e outros movimentos sociais já fizeram críticas ao FdE. Recentemente, um integrante da Mídia Ninja foi expulso da favela do Moinho e outros já haviam sido hostilizados em protestos. Ao que vocês atribuem a hostilidade de diversos movimentos sociais ao FdE e suas iniciativas, como a Mídia Ninja?

Existe algum ponto de consenso nos movimentos sociais? O que existe, no nosso entendimento, é um espaço enorme de diversidade e de disputa de narrativas e alinhamentos a partir dos valores e interesses dos movimentos. Acho complicado mais uma vez transformar disenso, que é algo natural das sociedades democráticas, em uma questão moral que distorce a realidade.

Primeiro que NUNCA nenhum integrante do Midia Ninja foi expulso de lugar nenhum, muito menos da Favela do Moinho, portanto mais uma vez a pergunta da Carta Capital afirma sem provas e sem base na realidade. Esses mesmos movimentos citados criticam vários outros movimentos, e criticas fazem parte do processo de debate em uma sociedade democrática. Ao mesmo tempo somos parceiros e temos recebido diversas moções de apoio e solidariedade de vários outros movimentos como o MST, a CUFA, o Afroreggae, a Agencia de Redes pra Juventude, O Movimento Nacional dos Direitos Humanos, o Movimento Ação Griô, o Movimento de Povos de terreiro, a UJS, e vários movimentos Ambientais, Sociais e Culturais. Não conhecemos nenhum movimento que seja um consenso absoluto dentro das lutas sociais que são realizadas no Brasil e no Mundo, e isso deveria ser visto como algo natural, sem alarme e tanto alarde. Alarmante é a forma como determinados setores da cultura e da mídia brasileira tem reagido a uma pequena “ameaça” aos modelos vigentes de produção cultural e comunicação.

– Ao que vocês acham que se deve a proliferação de depoimentos contra o FdE na última semana?

Vivemos num momento de grandes mudanças. As jornadas de Junho no Brasil, alinhadas a diversos movimentos que correm o Mundo todo hoje, mais as mudanças tecnológicas vividas recentemente nos colocam no olho do furacão, neste processo de mudanças sociais dramáticas, trazidas pelo Digital. Somos um laboratório de experiência de rede digital único no Brasil e talvez único em todo o mundo. Trabalhamos fortemente nos últimos 10 anos dentro do circuito cultural e a pelo menos 3 anos estamos num diálogo constante com diversos setores da sociedade brasileira. Fazemos tudo isso de forma aberta e transparente entendendo que somos Beta, e que estamos em processo permanente de atualização. E pra completar tivemos uma enorme visibilidade nos últimos dias com o sucesso e quantidade de questionamentos que a Midia Ninja teve e trouxe. Como movimento fortemente enraizado nas redes sociais, também recebemos os ônus e bônus de tudo que acontece ali. Ou seja, natural que um movimento que questiona sistemas de representatividade na rede, receba primeiramente os resultados disso. Pra gente essa é uma oportunidade grande de aprendizado para melhorarmos nossos processos. Não temos problema algum em receber a primeira ação tão ostensiva das redes sociais, como gostaríamos que outras entidades, estados e empresas estivessem recebendo, e realmente esperamos que esta experiência possa servir para que avancemos na construção das novas formas de participação e controle social trazidos pelo Digital. Hoje, o Fora do Eixo representa o problema real, é o fato, o que precisa ser entendido é que nós na verdade, somos a reação ao problema real que precisamos enfrentar: as mudanças sociais dramáticas e a inadaptabilidade dos antigos modelos cívicos de lidar com ela. Somos o pretexto pra um grande debate que precisa ser travado, e apesar da dor da injustiça, seguimos firmes acreditando que debate vai ganhar a profundidade necessária para que o Brasil encontre seus novos caminhos.

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