A beleza machuca

driade
Toda mulher é ou foi complexada com sua a aparência. Pais, amigxs, namoradxs, sociedade, mídia, economia, cultura, tudo diz que algo está errado com o seu corpo. O tempo todo. Do barzinho quando a pessoa que você está interessada nem te contabiliza como alguém pegável até na universidade quando a menina mais bonita tem mais 5 minutos de fala enquanto você é cortada exatamente quando o seu tempo acaba.Pesquisas feitas há menos de um ano indicam que apenas 4% das mulheres do mundo se consideram bonitas. Falsa modéstia a parte, esse também é o numero da população mundial que tem bulimia ou anorexia. É esse tipo de comportamento que encoraja certos homens a escrever um artigo chamado “5 razões porque mulheres gordas não merecem ser amadas”, alegando que não importa quanto marketing, cultura pop ou política em torno do assunto seja feita, pessoas gordas não são dignas de amor. É isso que faz mulheres negras serem hipersexualizadas em campanhas, é isso que faz asiáticas, índias e latinas serem colocadas na sessão “exótica” nos sites pornô (já que o único jeito dessas mulheres serem desejadas é se for pra atender uma tara).

Não tem nem como comentar a indústria da beleza. De um lado você não “é negra o suficiente com esse nariz” e do outro uma cantora nigeriana lança um creme clareador de pele alegando que “branco significa puro”. Enquanto os números de lipoaspiração e lipoescultura sobem entre os adolescentes de 15 a 18 anos, na Mauritânia, país da Africa Ocidental, meninas de 5 anos são enviadas a campos de engorda, com uma dieta de 16 mil calorias por dia, porque lá ser obesa significa saúde e status. Ao mesmo tempo veículos respeitados publicam que celulite em concurso de beleza é uma decepção, outros ensinam você a alisar o cabelo em 10 minutos, outros falam como emagrecer fazendo a faxina ou a esconder os pneuzinhos com os novos 30 tons de preto da última coleção. E dá-lhe Little Miss Sunshine, Concurso de Beleza, Miss Universo…

E não é que a cultura, a política ou o marketing não estejam ajudando. Dezenas de campanhas de cosméticos sobre belezas reais, filmes e séries valorizando a diversidade entre as mulheres e algumas políticas públicas (em espaços privados!) tem sido aplicadas. Até a Victoria Secrets já tentou mandar um “Love My Body”, mesmo que não houvesse nenhuma negra de cabelo natural ou alguém que não vista 38 nas fotos da campanha. Essas ações até ajudam, mas todas sabem que precisamos estar 100% atentas, 24 horas por dia para nos sentirmos seguras. Pra não cair na tentação que é ouvir algo negativo e acreditar naquilo. Pra não acabar no lugar comum de ódio próprio. Na beira da pia com uma escova de dentes no meio da garganta.

Foi um longo caminho para superar a minha repressão sexual somente pelo medo de ficar nua em frente de outra pessoa. E eu ainda me questiono se eu tento ser diferente o tempo todo só porque eu sei que não posso competir com uma mulher //realmente// bonita. E se eu realmente gosto de roupas folgadas ou se estou escondendo algo. Não foi fácil pra ninguém superar os “olivia palito, rolha de poço, cabelo de bombril, bruxa do 71, varapau, tábua de passar roupa, quatro olho, cabelo ruim, japoneusa, neguinha, trubufu, baranga…”.

Mas o fato é que você supera. Pra surpresa do mundo, você supera.

Em algum ponto da sua vida você fica mais inteligente, mais segura, mais orgulhosa. Você passa a responder que você é bonita sem pensar. Ou a achar que a cicatriz é sexy ou que você pode sim usar linhas horizontais na estampa. E tudo bem se essa confiança se abalar por 20 minutos quando você ver uma loira escultural ou levar um fora, ou não ser levada a sério. Porque exatamente 21 minutos depois você vai ter um plano melhor, mais rápido e eficaz. Estamos em constante construção e não há problema algum nisso. Estamos em constante superação e só há louvor nisso. Somos mulheres lindas, inteligentes, gostosas, bem sucedidas e pra muitos há terror nisso.

Pode ter certeza – quando nós mulheres virarmos essa chavinha o mundo vai explodir. Uma catarse de independência sexual, satistação econômica, autonomia nas relações, liberdade familiar, sentimentos insubordinados… E para as que ainda insistem cair no jogo do “sou mais mulher que você”, só me resta concordar com a grande pensadora contemporânea Beyoncé Knowles: “A perfeição é a doença da nação, a beleza machuca”.

#ELLAvemAí

 Dríade Aguiar é uma das editoras do NINJA  e gestora da Mídia Livre Fora do Eixo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*