Dos Black Bloc aos Big Brothers: formação política por contágio

Percussão, música, funk, Pink Bloc, Black Bloc, socorristas, advogados e movimentos da periferia participaram juntos da retomada do território urbano

Publicado originalmente na Revista Fórum.

Por Ivana Bentes

Entre os Black Blocks e os Big Brothers cabe um mundo de desejos, táticas, articulações em nome de um Comum (Mídia NINJA)

O Grito da Liberdade começou com uma ala de Black Block de braços dados e em silêncio e acabava com uma ala muito maior de Policiais no final. Entre esses dois extremos um mar de gente, movimentos, desejos.

Emocionante calar a Av. Rio Branco inteira com 2 mil pessoas atravessando em silêncio a avenida ao som compassado e solene das batidas de tambores, só cortado pelos nomes lembrados de presos nas manifs, ativistas e sonhadores de todos os tempos.

O Grito, como todas as manifestações têm sido, foi um ato de formação política, que teve que superar a autofagia (antropofagia dos fracos que comem e detonam o parceiro mais próximo) para tomar as ruas de forma linda e potente, recuperando o sentido estético e das diferentes linguagens nas manifestações políticas.

O que prova essa manif? Que é inútil e simplista dividir os manifestantes entre “vândalos”, “mascarados” e os manifestantes pacíficos. Se gritam é uma dor que dói. Ou uma intensa alegria. Estamos todos juntos!

É impressionante ver como os garotos da periferia do Rio estão se apropriando e emponderando da linguagem politica e estética das manifestações e vice-versa. Porque ali, de máscara ou cara lavada, com táticas lúdicas (performance, fantasias, carnaval politico) ou violência real e simbólica o que está sendo viralizado e se propaga por contagio e intensos debates é um desejo de transformação. Uma escola de ativismo em fluxo, processo político.

Os Black Blocks, mas não só eles, todos os que sofrem o poder no corpo (jovens negros das favelas, população de rua e agora ativistas e midialivristas) colocam de forma muito explicita uma questão decisiva para todos nós: o monopólio da violência pelo Estado. E toda a pauta politica que isso implica: do fim das mortes nas favelas até a total desmilitarização da policia e a neutralização do poder de morte do Estado. Biopoder, poder sobre a vida, escancarado e colocado em xeque.

Ao mesmo tempo está tomando corpo uma guerrilha popular de combate aos poderes nas ruas. Não se trata aqui de ficar com medo ou condenar. Mas de observar eentender, antes de tudo.

E se os garotos do tráfico estão chegando junto das manifestações e se misturando nelas não se trata de expulsa-los ou denuncia-los, mas trazer para o lado de cá! Ou teremos fracassado não como manifestantes, mas como sociedade!

Entre os Black Blocks e os Big Brothers (policia, mídia, todos os poderes) cabe um mundo de desejos, táticas, articulações em nome de um Comum.

Fica menor (mesmo que necessário e parte do processo) o debate mal colocado contra os atores e atrizes “da” Globo que apoiaram o Ato, se posicionando como sujeitos políticos nessa disputa. É possivel e preciso politizar tudo, em diferentes níveis e esferas, inclusive a escolha dos aliados, nem sempre óbvia. Quem quiser apostar nos dualismo, no purismo, no moralismo, já perdeu! .

O final do ato na Lapa _depois de uma manifestação com percussão, música, funk, Pink Bloc, Black Bloc, socorristas, advogados que estão nas ruas, garotos recém saídos das prisões arbitrárias, movimentos de periferia, silêncios, gritos de retomada dos territórios urbanas _ ainda vimos a aparição do Batman forte e do Batman pobre nos Arcos da Lapa junto com uma faixa pedindo a liberdade dos presos nas manifs.

As manifestações brasileiras estão reinventando os super-heróis! Vindos das ruas e/ou dos quadrinhos. Batman “rico” e pobre, homem-aranha, um bandeirante, Saci Pererê…

A Lapa virou uma praia noturna, onde ficaram todos pelo simples prazer de estar juntos. O fato destoante era o helicóptero da policia rondando do alto como num game em que se procura um alvo no chão, ameaçadoramente. Nós somos o alvo de um poder que foi por nós constituido? Nós, poder constituinte (Antonio Negri), a nós nos cabe romper com esse estado de coisas.

Em um momento de tensão se descobriu um P2 no meio da dispersão. O que poderia virar um ataque ou linchamento no corre-corre foi desarmado e contido pelos próprios manifestantes e pelos Black Blocs, tornados força de paz.

Ao final, os “quinhentos” (eram muitos!) policiais também fizeram a sua rodinha de convivência e bate-papo, tão a vontade que ficaram de costas para a aglomeração na praça tomada da Lapa.

O que prova esse Grito no meio de uma escalada de repressão e ódio?

Que podemos recomeçar tudo de novo e reinventar as manifestações e a cidade do Rio de Janeiro, todo dia.

*Ivana Bentes é professora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, coordenadora do Pontão de Cultura Digital da ECO/UFRJ.

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